A Forma da Água, recebeu 13 indicações ao Oscar 2018, entre elas melhor roteiro original, direção, filme e atriz protagonista, o que faz do novo filme de Guilherme Del Toro o preferido da Academia.

Apesar das acusações de plágio, de cenas inteiras do filme clássico da Universal na década de 50, O Monstro da Lagoa Negra ou mesmo da ideia de uma das histórias do clássico HQ erótico, As Pérolas do Amor de Georges Lévis e Francis Lerói, o roteiro de Guilhermo del Toro e Vanessa Taylor, é uma fábula requintada, violenta e erótica.

O filme se passa nos 60, auge da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, e nele vemos a estupidez do poder da autoridade e de uma sociedade conservadora, preconceituosa, que rejeita o “outro”, marginaliza minorias e estrangeiros. O filme coloca uma lente de aumento nesta autoridade “homem branco”, caucasiano, perturbado, que se deteriora, fede e apodrece em sua cegueira e apego a uma honra deturpada e valores materiais.

Mesmo assim, o “outro” chega vindo da América do Sul, mais precisamente da Floresta Amazônica no Brasil, onde ele era considerado Deus, e agora tratado como selvagem, um ser desprezível e perigoso.

Sally Hawkins, realiza um trabalho absurdo e emocionante como Elisa, a faxineira muda – signo de seu gênero, classe social e ocupação – ela é uma sem voz. E é ela que através da comida, da música, da sensibilidade vai estabelecer conexão com a criatura, que evolui para um flerte, numa curiosidade sexual tolerante e não padronizada.

O filme é narrado por Giles (Richard Jenkins), um ilustrador desempregado por causa do uso da fotografia na publicidade, solitário ele vive com seus gatos e a TV ligada o tempo todo. Com Elisa, sua vizinha ele compartilha seu amor pelos musicais.

Musicais dos anos 30/40 (Shirley Temple, Carmem Miranda, Al Jolson).

No elenco, temos ainda os talentosos Michael Shannon, Octavia Spencer (sempre digna e talentosa), Michael Stuhlbarb e outros.

Além do elenco notável, temos a fotografia de Dan Lautsen (que nos remete um pouco a estética do trabalho de Jean-Pierre Jeunet em Ladrão de Sonhos, Delicatessen e Amelie Poulain), a bela trilha sonora é de Alexandre Desplat e a direção de arte Nigel Churcher.

O filme vai além da atmosfera de fantasia, ele tem voz e podemos encontrar seu eco de época dos anos 50/60, ainda hoje nas margens de 2018, como uma Quimera que num eterno despertar renasce, nos assombrando e impedindo nossa evolução enquanto humanidade.

Guilhermo Del Toro mais uma vez se supera, ele que é conhecido por ser um “bom cara” na indústria e pelos seus famosos monstros, depois do Labirinto do Fauno, parecia impossível construir uma personagem tão instigante e bela, mas ele sonhou e realizou esse que talvez seja a sua criatura mais polêmica e onírica.

Vamos aguardar o próximo!

Resumo
A Forma da Água
Jacqueline Durans
Roteirista, Diretora e Produtora. Graduação em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, formada pelo Teatro Escola Macunaíma, SP; Coprodutora, Roteirista e diretora dos curtas: 2017 - Curta documentário "Achei o meu nariz" 2016 - Cidade em Transe; 2016 - Insônia – Inspirado na obra de Edward Hopper. 2016 - Coordenou o NucineClube da Universidade Estácio de Sá - Campus João Uchõa. Master classes de roteiro e direção com Sir Richard Eyre, Carlos Reichnbach e outros.