“Eu sou seu pai!” – a frase icônica proferida por Darth Vader a Luke Skywalker é divertida e brilhantemente reproduzida na introdução de “Alien: Covenant”, quando o bilionário Peter Weyland (Guy Pearce) explica ao androide David (Michael Fassbender) como ele foi criado. O ato da criação e a relação criador-criatura, substratos de diversas discussões filosóficas e inspiração para livros que fazem parte da história da civilização, são temas fortemente presentes neste novo filme da franquia do diretor Ridley Scott. Mais filosófico que a tetralogia original, mais sanguinolento que “Prometheus” (2012), “Alien: Covenant” é eletrizante, fascinante e magnificamente realizado.

O longa narra os acontecimentos que se sucedem ao filme de 2012. A gigantesca espaçonave Covenant segue em uma viagem espacial tripulada, onde se destacam o primeiro encarregado Oram (Billy Crudup), a astronauta Daniels (Katherine Waterston) e o androide Walter (Michael Fassbender) uma versão atualizada de David de “Prometheus”, além de outros astronautas e cientistas e inclusive fetos humanos que estão sendo incubados em uma imensa câmara criogênica. Covenant detecta um sinal vindo de um planeta em sua rota (que a gente sabe o que é! ou no que vai dar!) e envia um lander tripulado para identificar a fonte, nos levando consigo ao sombrio asteroide do final do filme de 2012. Os eventos que se sucedem a partir daí me levaram a uma experiência de pura adrenalina, cujos detalhes não devem ser aqui revelados para não estragar a experiência cinematográfica da audiência, mas digo aos fãs que Ridley Scott nos trouxe desta vez a obra mais próxima dos dois primeiros (neo) classicões da franquia.

Alien Covenant

O roteiro de “Alien:Covenant” é muito bom, e constrói a ação e até mesmo o horror sustentado por uma base de discussão filosófica nietzschiana pertinente. A direção de Ridley Scott é correta – em algumas sequências ostentando as maravilhas da computação gráfica, como na cena onde os dois androides interpretados por um único Fassbender conversam a uma pequena mesa e o diretor faz diversos travellings com a câmera do rosto de um personagem para o outro sem cortes (e o espectador mais crítico vai se perguntar: como diabos ele filmou isso?). Traz uma deliciosa e sangrenta “versão Alien” da “cena do chuveiro” envolvendo um voluptuoso prolongamento alienígena em formato fálico, e mostrando um genial plano ponto de vista do monstro Alien, nos permitindo por segundos vermos com os olhos do predador. A fotografia do filme também é louvável, conseguimos perceber a diferença clara na forma como as cenas dentro da nave são iluminadas (fontes mais quentes), em contraposição à sombria e fria iluminação das cenas filmadas no planeta onde os astronautas vão parar. A correta montagem também contribui para a excelência do filme, ressaltando o genial uso da montagem simultânea (onde dois eventos diferentes são mostrados ao mesmo tempo) para esconder os segredos do filme no terço final.

As interpretações estão todas corretas – temos participações especiais de luxo de Guy Pearce e James Franco. Katherine Waterston nos traz uma heroína forte e empoderada, todos os coadjuvantes convencem, mas o filme é de Michael Fassbender. Com o desafio de interpretar dois personagens androides díspares que tomam rumos completamente diferentes sendo fisicamente idênticos, o ator samba na cara de toda sociedade intergaláxica, chegando a ser difícil notarmos qualquer outro trabalho de interpretação diante da perfeição e da exuberância do seu. Graças à computação gráfica, o Alien está mais ágil e veloz, e apesar de em algumas cenas mostrar até ser um tanto espirituoso, como bom romântico senti falta do velho Alien do século XX – um tiozão fantasiado.

O filme ainda guarda um grande soco no estômago da audiência que é dado ao seu final, uma imensa metáfora crítica ao abuso de poder e governos ditatoriais que parecem absurdamente ganhar a simpatia em diversos países no mundo, na bizarra inclinação global à direita em que estamos vivendo. O final do filme nos leva a refletir que um dia, há décadas atrás um cenário parecido com o que vivemos hoje se construiu, ninguém gritou nem interveio, o monstro cresceu e exterminou mais seres humanos que qualquer Alien de Hollywood jamais teria aspiração. A trilha sonora de “Alien:Covenant” traz músicas clássicas de R.Wagner, sempre citando o compositor e as obras nos diálogos para ressaltar. O compositor preferido do Führer. Para bom entendedor meia palavra (ou nota musical) basta.

Resumo
Alien: Covenant
Wilson Antônio

Estudante de “Cinema e Audiovisual” na Universidade Federal Fluminense, Cirugião-dentista e DJ de música eletrônica, carioca da gema (mas torço pelo São Paulo Futebol Clube) e acredito que a felicidade se compra sim, nas bilheterias das salas de cinema! Entusiasta da historia do cinema mundial e da cinematografia européia. Agradeço ao cinema quem eu sou, como acordo, como como, como ando, como penso, como sinto e principalmente como amo!