O autor alemão Johann Wolfgang von Goethe, ao escrever Fausto, descreve a imagem do estudioso que vende a alma ao demônio em troca da felicidade. E, para a sociedade alemã do século XIX, Fausto volta para relembrar problemas ocasionados pelo choque entre o indivíduo e o meio social. Como uma sombra, que vem para reiterar antigos questionamentos; como o próprio Goethe definira na dedicatória de sua obra “Aqui vindes outra vez, inquietas sombras?” ( Ihr naht euch wieder, schwankende Gestalten?). Este estudioso que, já tendo buscado diversas formas de conhecer o mundo através de fórmulas lógicas, procurando cada vez mais desafiar os limites da ciência com suas projeções, vê-se desanimado diante da sociedade. Todo o seu conhecimento abre portas para mais dúvidas e o distancia das pessoas, as quais o respeitam sem compreendê-lo. Frente a isto, Fausto faz um pacto com o demônio em troca das oportunidades que perdera em sua vida, tentando compreender o mundo sem a preocupação com sua própria felicidade. Fausto, no início deste encontro, tem uma rápida impressão sobre a juventude e a frívola alegria até que cai outra vez em seu desânimo; o que o leva a assinar o pacto permanentemente com sangue e o inesperado amor por Margarida, o qual ele não vê possibilidades de conquistar por meios próprios.

Embasando-se em uma análise morfológica , a palavra “diabo” vem do grego diábolos, que une ao verbo balo (jogar) a preposição diá (para longe) o que significa “lançar para longe, distanciar” e o termo “Lúcifer”, por sua vez, vem o latim lucifero, que pode ser traduzido tanto como “aquele que traz a luz”, quanto como “aquele que leva a luz”. Tomando como base o último significado deste termo, unido ao sentido semelhante do anterior, em que ambos funcionam como adjetivos em seus idiomas de origem, é possível definir o significado do ocorrido na vida do doutor Fausto após o pacto que singularizou sua história: houve um desvio em seus propósitos, exatamente da forma prevista na aposta de Mefistófeles com Deus no “Prólogo no Céu”. Ao longo tanto da obra literária, ele trabalha para a degradação do protagonista a partir do momento em que decide abandonar seus objetivos iniciais. Vê-se a gradativa perda de valores, em que as pessoas próximas ao estudioso também têm suas vidas prejudicadas, como Margarida.

Fausto encarna, assim, as decepções de uma burguesia que se vê individualizada e impotente diante das adversidades do mundo, que ignora os problemas com a civilização através da busca de elementos naturais e com pouca relação com o coletivo, característica que se percebe no início, com a atitude do estudioso, que se volta para a ciência, separando-se da sociedade. Esta aparece como um grande empecilho, desumanizada por seus duros valores, vitimizando personagens como Margarida, Valentim e o próprio Fausto. Apresenta-se como algo uniforme e frio, que se interpõe entre o bem e o mal, o que demonstra a desilusão dos artistas românticos na literatura e expressionistas no cinema com o mundo que os cercava.

Tomando como base a analogia com o romance do estudioso retratado por Goethe, Marlowe e Johannes Trithemius, que se torna um símbolo desta situação, podemos identificar tendências semelhantes, no que se refere ao contexto retratado em algumas obras contemporâneas, como no caso do filme Annabelle 2, que chega aos cinemas neste momento. O filme é dirigido por David F. Sandberg e aborda a narrativa de um fabricante de bonecas (Anthony LaPaglia) e uma esposa (Miranda Otto), que perdem sua filha pequena de uma forma trágica e, doze anos mais tarde, recebe uma freira, a Irmã Charlotte (Stephanie Sigman), que leva diversas meninas de um orfanato. Aos poucos, as meninas vão vivenciando fatos estranhos, que indicam a presença de algo maligno na casa, percebidos primeiramente pelas amigas Linda (Lulu Wilson) e Janice (Talitha Bateman), que tem dificuldades para andar devido à poliomielite, que é a primeira pessoa apresentada a uma misteriosa boneca.

 

Podemos observar, no filme, bastante desta visão sobre a entrada do mal em um momento de fragilidade emocional. Quando Janice pergunta à freira se ela é uma vítima mais provável, porque é mais vulnerável fisicamente, sua tutora a responde que o mais importante é ser forte emocionalmente e ter fé. Isto é uma questão muito recorrente no filme, uma vez que a força maligna só tem permissão para entrar na casa em um momento de fraqueza dos pais, em que eles estavam tristes e vulneráveis após perder a filha, fazendo com que pagassem qualquer preço para que voltassem a ter contato com ela. Janice tem o poder da escolha, porém, fica muito fragilizada ao longo do filme, o que faz com que ela se entregue à força que a perseguia. Ela não podia correr com as outras meninas e se sentia rejeitada, o que fez com que se envolvesse mais com a estória da filha do casal; e,quando é atacada por ela e sua situação piora, começa a acreditar que nunca será adotada ou melhorará daquela condição, Janice não vê espaço para ela no mundo nem mesmo com as colegas de orfanato, o que faz com que se entregue com mais facilidade. A cena em que a boneca toma conta de seu corpo se passa à luz do dia, o que faz com que, semioticamente, transmita uma aceitação e uma permissão da parte da menina, ocorre perto de todas as outras, porém, sem nenhuma perceber imediatamente. Isto é uma afirmação do conceito do Fausto, das sombras que aparecem em momentos de desilusão e da possibilidade de recorrer a eles para atenuar o sofrimento. Quando a boneca se apossa de Janice, ela volta a andar e, no futuro, consegue uma adoção, tudo o que a jovem gostaria, mas se sentia impotente ou incapaz para conseguir.

Porém, ainda que esta interpretação seja válida, algo que poderia tornar o roteiro mais forte seria a permanência de Janice com sua integridade até o final, uma vez que filmes de Terror ganham muito contando suas narrativas sob o ponto de vista mais frágil. A menina, que tinha dificuldades locomotoras, traria muita tensão ao filme se tivesse permanecido a heroína até o final e sua ótica fosse a predominante no filme. Além disto, a personagem da Irmã Charlotte como força emocional ao longo do filme é bastante interessante, uma vez que ela representa esta segurança durante a situação; ao longo do filme, ela se torna capaz de combater Anabelle com coragem, ajudada pelas outras meninas, em especial linda, que é bastante corajosa.

Como experiência em 4D, o filme possui efeitos que corroboram com a atmosfera criada pelo filme, como o piscar de luzes e jatos de ar atrás das cadeiras, ventiladores e alguns movimentos de cadeira; porém, outros atrapalham a construção do filme, como vibrações ou movimentos bruscos, que atraem a atenção para o que está ocorrendo na sala de projeção e não no filme em si. As vibrações no bater de portas é exagerada e, também, antecipam sustos ao longo da obra, atenuando o efeito. Porém, os efeitos são bem construídos e sincronizados com o filme, o que valoriza a produção de Richard Brener, Michael Clear, Walter Hamada, Steven Mnuchin, Dave Neustadter, Hans Riter, Peter Safran e James Wan. Como se percebe, muitas pessoas,o que justifica a precisão técnica de Annabelle 2. A edição de Michel Aller também se destaca, uma vez que além das imagens e dos sons, foi necessário, também, trabalhar com os efeitos sensoriais. Os ambientes e os objetos também são bem construídos e ricos em detalhes, em que basicamente apenas a locação da casa foi utilizada, porém muito bem explorada e construída.

No contexto geral, é um filme assustador, que envolve os espectadores na trama, com diversos momentos de sobressaltos. É interessante experimentar a imersão no filme, também em relação aos efeitos e à proposta de nos levar para aquele universo. Também, se olharmos os detalhes, há questões de mundo e filosofia presentes, como apontados acima, capazes de fazer quem assiste pensar sobre a relação com o mundo e a manter a integridade, mesmo em momentos de fraqueza.

Resumo
Annabelle 2
Julhia Quadros
Com experiências prévias com Dança, que pratica há quinze anos, e Poesia, com algumas obras publicadas em livros, estuda cinema é amante de música, teatro e todos os tipos de artes. Gosta de escrever como uma contribuição ideológica para o mundo e busca, com os seus textos, trazer um novo olhar para os filmes abordados através de sua opinião.