Não é de hoje que a icônica origem do Batman é contada e recontada em diversas mídias diferentes ao longo dos seus 77 anos de existência. Seja falando da trágica morte dos pais de Bruce Wayne, a ligação com os morcegos e a caverna, e a sua transformação no Cruzado Encapuçado, até momento, nenhuma das versões tinha mostrado algo muito diferente da premissa original.

Mas, com a chegada das novas histórias do Homem-Morcego pós-Rebirth, um novo capítulo do passado do herói é revelado.

Na décima segunda edição da hq do Batman, durante o arco “I Am Suicide” (Eu Sou Suicida – em referência ao Esquadrão Suicida criado pelo herói na trama), escrita por Tom King, Bruce relembra um episódio após a morte dos seus pais e faz uma revelação que pode dar novo significado a sua cruzada, além de potencialmente mudar a maneira como os fãs o enxergam.

ATENÇÃO: SPOILER

Traído por Selina Kyle, que está sendo transferida para o Asilo Arkham depois de supostamente ter matado 237 pessoas, Bruce começa a fazer uma reflexão sobre sua vida, enquanto escreve uma carta para a vilã.

Enquanto divide os seus seus traumas com a Mulher-Gato, Bruce Wayne conta que tentou suicídio aos dez anos, logo depois de ficar órfão.

Na carta a Selina, antes de fazer a confissão, Bruce reconhece o absurdo de sua cruzada contra o crime, frisando que seus pais – “classicamente dignos, classicamente bondosos” – teriam rido se vissem seu filho fantasiado de Morcego. Bruce reconhece que ele mesmo tem vontade de rir disso às vezes, mas sabe que Selina não riria, por que, apesar de tudo, o entende.

Por fim, ele compreende o quão estranho é o planeta estar sendo salvo incontáveis vezes por aquela criança assustada que viu seu próprio mundo desabar.

Segue um trecho da confissão:

“Não. Lá em cima. Olhando para nós. Tentando nos salvar. É aquela criança. É aquela pequena criança rica cujos pai e mãe foram mortos. E no lugar de ter um momento de luto, ele se ajoelhou e fez um juramento”, relembra Bruce. “Eu tinha dez anos. Eu peguei uma das lâminas de barbear do meu pai e fiquei de joelhos. Eu passei o metal no meu pulso. A lâmina rasgando friamente. O sangue na minha mão. E eu olhei para cima. Para meus pais. Eu disse que sentia muito. Eu sentia muito”, confessou o herói.

Não é novidade que Bruce Wayne, por muitas vezes, seja tratado como um vigilante com tendências suicidas; o que o aproxima da vasta galeria de personagens com desvios de comportamento e distúrbios psicológicos que povoam Gotham City – algo que Alfred sempre ironizou por diversas vezes.

King escreve na edição que o momento da tentativa do suicídio foi o instante em que Bruce fez seu juramento de combate ao crime. “Minha vida deixou de ser minha vida”, diz Bruce na carta. Segundo ele, sua cruzada “é a escolha de um garoto, a escolha por morrer”. “Eu sou Batman. Eu sou suicida”, finaliza. Esse tema do instinto suicida já era perceptível desde a primeira edição da fase de King.

A revelação não só torna literal a tendência suicida de Bruce Wayne como reconfigura o sentido da sua cruzada, interpretada por muitos como um modelo de superação do homem comum contra a adversidade. A nova abordagem da origem do Batman também traz um pouco mais de humanização ao herói. Saber, que em algum momento, ele foi humano o suficiente para ficar tão assustado a ponto de cometer tal ato, pode agradar alguns fãs e aqueles outros que sempre foram avessos à visão quase divina que davam ao Homem-Morcego.

Em entrevista ao CBR, King diz que consultou Scott Snyder (o roteirista anterior) sobre o teor da HQ. “Eu falei pra ele: ‘Tomei essa decisão, e estou um pouco nervoso, porque não estou certo se fui longe demais’. E ele me respondeu: ‘Esse é o meu Batman. Esse é o Batman que eu estive escrevendo também. Eu nunca cheguei a dizer [que Batman é suicida] mas é ele, sim’.”

“É como se Bruce dissesse: ‘Eu não vejo mais um sentido de levar uma vida para mim, mas posso viver a minha vida para os outros'”, diz King, frisando que, para ele, Bruce Wayne sempre teve esse perfil, desde sua criação. “Isso é quase uma literalização de algo que já está por aí há muito tempo.”