Quando o astronauta soviético Yuri Gagarin olhou pela escotilha da nave Vostok-I disse, “a terra é azul” e com certeza lá de cima ele não viu nenhuma fronteira separando territórios, culturas…humanos por classes e subclasses.

Azul, são os primeiros momentos do filme de Ai Weiwei (um documentário performático) revelando a imensidão neutra de um oceano, como tapete de fundo para o voo de uma ave migratória.

Human Flow – Não existe lar se não há para onde ir, um retrato do êxodo contemporâneo de milhões de refugiados pelo mundo (65 milhões de pessoas segundo estatísticas), que tiveram sua liberdade usurpada por conflitos ou desastres naturais e que fogem da violência da guerra, da fome e da morte, em busca de um lugar onde possam viver por um tempo (estimado de retorno para “casa” em 25 anos).

Os cenários e circunstâncias são desoladores, a esperança está na poesia que pontua o filme em vários momentos, somando algum sentido filosófico, poético, que explique ou justifique tais circunstâncias.

Hoje questionasse o direito a fala na realização de uma obra, que é cedido a partir do pertencimento e vivencia do realizador sobre o tema escolhido. Ai Weiwei, diz que sempre se sentiu uma espécie de criança refugiada, durante vinte anos seu pai foi punido por ser poeta e enviado para um campo de trabalho chinês. Seja pelas suas memórias ou vivências, Weiwei consegue realizar um filme sensível, isento, com o olhar de quem observa registrando a vida que acontece, os fatos.

As belas e potentes imagens do documentário são realizadas pelo próprio Ai Weiwei (assumidamente com seu celular em punho em vários momentos do filme registrando) e os fotógrafos Murat Bay, Christopher Doyle, Lv Hengzhong, Wenhai Huang, Koukoulis Kostantinos, Renaat Lambeets, Dongxu Li, Johannes Waltermann, Ma Yan, Zambo Zhang, Xie Zhenwei.

Foram usadas também imagens capturadas via drones, exibidas expondo em perspectiva nossa dimensão enquanto existência no planeta, que vistos de cima, não há distinção diferenças de classe, raça, religião, cultura.

Os retratos filmados são de uma beleza e sensibilidade inquietante. A escolha é pelo respeito, as câmeras registram aquilo que talvez as palavras levassem para um discurso comum.

Em seu depoimento – um dos mais contundentes – a Princesa  Dana Firas da Jordânia, um dos países que mais abrigam refugiados atualmente, fala quão perigoso para todos nós é a perda da nossa humanidade.

Ao longo das filmagens que duraram 1 ano, Weiwei e suas equipes, estiverem em 23 países (Bangladesh, Grécia, Itália, Iraque, Jordânia, Líbano, Quênia, Turquia…além das fronteiras dos EUA e do México).

Pensando em todos esses lugares e no material captado, acho fundamental citar os roteiristas Chin-Chin Yap, Tin Finch, Boris Cheshirkov e o montador Nils Pagh Andersen, que conseguiram dar alma ao documentário.

O filme é uma denúncia sobre as condições que estas pessoas “refugiadas” enfrentam para sobreviver, vivendo em circunstâncias sem saneamento básico, expostas a humilhações, violência moral, física, mudanças de climas, escassez de alimentos, remédios e seus direitos e existências negados.

Durante as filmagens WeiWei diz ter ficado muito impressionado de ver como todas aquelas crianças, em circunstâncias de risco,  assustadas e com medo não choravam.

 

Uma das maiores polemicas do filme está na Europa, berço de onde muitos migraram no pós guerra do século XX, pelos mesmos motivos que os refugiados de hoje, que eles recebem negando asilo, com suas cercas que impedem entrada ou passagem por seus países,  destinando os refugiados a lugares que mais parecem campos de concentração, tirando-lhes a pouca dignidade restante e tratando-os como sub-humanos. A cena da recepção dos refugiados africanos em um porto italiano, é como assistir algo aproximado a recepção dos judeus nos campos de concentração – claro, guardadas as devidas proporções.

Em entrevista a Revista Cult do grupo UOL,  Ai Weiwei disse que,  “como artista, é muito importante envolver-se em todas estas questões. E, como indivíduos, devemos agir. Não se pode confiar nas instituições, na política, eles não estão nem aí”.

Resumo
Human Flow
Jacqueline Durans

Roteirista, Diretora e Produtora. Graduação em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, formada pelo Teatro Escola Macunaíma, SP; Coprodutora, Roteirista e diretora dos curtas: 2017 – Curta documentário “Achei o meu nariz”
2016 – Cidade em Transe; 2016 – Insônia – Inspirado na obra de Edward Hopper. 2016 – Coordenou o NucineClube da Universidade Estácio de Sá – Campus João Uchõa. Master classes de roteiro e direção com Sir Richard Eyre, Carlos Reichnbach e outros.