Coulrofobia é o termo utilizado para o medo patológico de palhaços, o que geralmente causa falta de ar, boca seca, suor nas mãos e desconforto, entre crianças e adultos. É um distúrbio que possui algumas justificativas históricas e psicológicas, fundamentadas nos primeiros palhaços a utilizarem a caracterização similar à da atualidade, como Joseph Grimaldi e Jean Gaspard Deburau Pierrot. Grimaldi, sucesso na Inglaterra em 1820, foi o primeiro palhaço a pintar o rosto com tinta branca, destacar os olhos e a boca e a usar o nariz vermelho, que se tornaria o principal símbolo da profissão, era um excelente malabarista e imitador de pessoas e estima-se que era tão popular que mais de 80% da população de Londres já tinha assistido a pelo menos um espetáculo que fizera. Porém, sua vida pessoal era sombria e triste, quando criança, apanhava constantemente do pai, que matara sua mãe e, posteriormente, tornou-se um batedor de carteiras. Começou a e apresentar nas ruas, onde foi descoberto por um agente de talentos. Quando se casou e teve filhos, surrava e maltratava a família, obrigando os filhos a passarem fome como castigo, o que era agravado por um banquete que deveriam preparar para o pai, assistindo-o comer. Grimaldi se tornou alcoólatra, tinha fama de pedófilo e frequentava bordéis, onde pagava fortunas para ser chicoteado e humilhado. O palhaço morreu de cirrose, em 1827, sem dinheiro. A vida de Grimaldi inspirou Charles Dickens a publicar um romance nos jornais, explorando o limite entre o homem que fazia rir e a figura sombria por trás da máscara, o que se acredita ter sido o começo do mito do palhaço como uma figura sombria.

Deburau, um palhaço francês contemporâneo de Grimaldi, também extremamente popular, que usava a maquiagem branca e as sobrancelhas escuras, também construiu uma fama assustadora em sua vida. Matou um menino de onze anos, que o insultara na rua, a golpes de bengala, porém, foi inocentado do crime devido à sua fama. Deburau, também, avançava contra seu público durante as apresentações, fazendo com que fosse perdendo sua popularidade. Pierrot deu origem à imagem do palhaço triste, que é ainda representada com a personagem desenvolvida a partir do seu sobrenome. A origem do medo dos palhaços por parte das pessoas descende destes casos comuns de comediantes que possuem estórias de vida repletas de tristeza, agressões, crimes e conteúdos pesados demais para estarem em histórias de pessoas que deveriam fazer as demais rirem e trazer alegrias. A máscara, também contribui para isso; um palhaço é uma pessoa que exagera suas características físicas, usa uma maquiagem extravagante, cabelos coloridos e esvoaçantes e a quem é permitida uma dose de loucura, sempre evocada nas obras de arte. O bobo é sempre o sujeito livre, desbocado, obsceno, que ri das autoridades e zomba da moral, que é geralmente descartado pelas pessoas, sendo porém, quem tem maior consciência do contexto geral, em sua loucura. Um palhaço é uma figura que faz a mediação entre o caos e o riso, que andam sempre, muito unidos, o que faz com que o indivíduo se projete para fora da ordem das coisas. Esta imprevisibilidade da figura, a liberdade caótica, por trás de uma máscara, que não permite que se veja os traços humanos, é uma possível justificativa para o medo de algumas pessoas, que acreditam que podem esperar qualquer atitude para além dos sorrisos e piadas dos palhaços.

É esta sensação que permeia o filme A Coisa, inspirado no livro homônimo de Stephen King, dirigido por Andy Muschietti. O palhaço Pennywise (Bill Sacarsgard) ataca crianças, aparecendo, primeiramente, como uma figura que elas temem. Os amigos Bill (Jaeden Lieberher), Ben (Jeremy Ray Taylor), Richie (Finn Wolfhard), Beverly (Sophia Lillis), Mike (Chosen Jacobs), Eddie (Jack Dyler Grazer)e Stanley (Wyatt Oleff) são atormentados ao longo da obra pelas perseguições do palhaço, que sempre os convida a flutuar e tendo sido interrompido em diversas aparições pela chegada de adultos, fazendo com que a atmosfera de terror se prolongue ao longo do filme. Logo no princípio do filme, ele leva Georgie, o irmão mais novo de Bill que é dado como desaparecido, o que faz com que o jovem fique obcecado com a ideia de encontrar o irmão e, quando descobre a origem dos ataques, decide perseguir Pennywise e convence os outros jovens a o acompanharem, o que fazem, com alguma resistência, devido ao imenso medo e da concorrência com a opção mais fácil para todos, de irem embora da cidade e não resolverem o problema, passando adiante para outros jovens no futuro.

Uma das questões mais interessantes do filme é que o palhaço se alimenta do medo das crianças, ele surge e cresce a partir do poder que o medo confere a ele. Alguns vêem seus medos em forma de incêndios, uma mulher desfigurada, um pai abusivo, um leproso e diversas figuras e situações traumáticas para cada um. Pennywise utiliza estas figuras para que os jovens estejam mais vulneráveis para seu ataque, causando neles um sentimento de terror até poder matá-los. Porém, quando o grupo descobre esta estratégia, perdem o medo do palhaço, fazendo com que seu poder sobre eles diminua; passam a ter força com a união e o vencimento do medo, só assim, são capazes de derrotá-lo junto com seus próprios fantasmas. Além disto, a opção de atacá-lo, em seu espaço e não fugir, também pode ser interpretada como mais uma forma de encarar os traumas e extirpá-los; quando não se encara algo de frente, isso não acaba e continua voltando posteriormente, em outro momento de vida. Neste filme de terror, o vilão é o próprio medo.

Porém, no roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, a forma de levar o horror no filme não fica tão definida. Não é exatamente, um filme de sustos e violência, nem de um clima e uma ambientação de terror. Por uma possível opção de se atingir os dois pontos, o filme está em um meio termo que enfraquece a atmosfera de medo. O excesso de aparições de Pennywise ao longo da trama adolescente, a maioria frustrada, faz com que os espectadores se acostumem aos ataques do palhaço e já os esperem. Os pais das crianças, em determinados momentos se tornam mais assustadores que o monstro, como o pai de Beverly, que abusa da menina ou a mãe de Eddie, que o faz acreditar que é doente e que tem uma saúde frágil. As sequências em que as crianças estão com eles são situações de mal estar e de um trabalho mais realista do terror. E o jovem Henry Bowers (Nicholas Hamilton), que pratica atos cruéis de bullying com os protagonistas, que envolvem socos, cortes a canivetes, chutes e agressões físicas de diversas formas, também se torna uma personagem complexa, que representa uma forma real dos jovens de lidarem com seus medos. A primeira experiência que têm de encará-los e em grupo é quando enfrentam Henry e seus amigos, fazendo com que se sintam poderosos para repetir a experiência com Pennywise. Além destas questões, o filme carece de explicações sobre a origem do palhaço e como ele passa a agir desta forma com as crianças há anos.

A fotografia de Chung-hoon Chung contribui para o ambiente sombrio, alternando cores mais abertas e claras em momentos de descontração e mais escuras nas aparições de Pennywise, geralmente, fechando mais os planos nestas ocasiões. A presença do vermelho ao longo do filme é bem forte, tanto no sangue retratado, quanto nos cabelos de Beverly, nos balões que precedem a entrada do palhaço e ambientes fechados, em geral, talvez por ser uma frequência que permite a transição da alegria do circo para o terror. O amarelo, também, é bastante presente, cores, em geral que remetam a circos e palhaços. A montagem de Jason Ballantine faz com que os momentos de calmaria ocorram de forma mais lenta que os ataques do monstro; ele é retratado se movendo com rapidez quando ataca, aumentando a sensação de desconforto e perigo. E alguns movimentos mais mecânicos e decompostos, como o do homem sem cabeça que surge para Ben e a mulher, que surge para Stanley, enfatizam o horror a cada uma das figuras nos momentos em que surgem.

A partir do que foi apresentado, é interessante perceber que o filme retrata o medo através de um ser misterioso, aparentemente simpático e amigo das crianças. O mostro do filme é o imprevisível, o obrigatoriamente feliz e em ordem, que se desfaz no caos da tragédia, da tristeza e do horror, fazendo com que as pessoas sofram e relutem em aceitar que o que era para ser algo comum e prazeroso se desfaz em consequências tristes e ruins, como algo que foge do controle humano. É, antes de tudo, o grande medo humano de, por trás da imprevisibilidade da vida, esperar uma representação de alegria, mas encontrar, em troca, dor e sofrimento.