A vida é dura! Pelo menos para a maior parte das pessoas e todos nós sabemos disso, o que não nos impede o tempo todo de sonhar! A conquista dos sonhos é um dos principais temas de que trata “La La Land”, filme que abocanhou as principais premiações do início deste ano como o Globo de Ouro e o prêmio do Sindicato dos Produtores dos Estados Unidos, tornando-se o grande favorito ao prêmio de melhor filme no Oscar 2017, mas não é o único. “La La Land” também é uma grande homenagem à cidade de Los Angeles, onde se encontra a grande fábrica de sonhos, os estúdios de Hollywood, aos saudosos musicais que saíram de seu ventre e ao Jazz que embalou a trilha de uma grande parte dos mesmos.

O filme acompanha a vida da aspirante à atriz Mia (Emma Stone), que entre frustradas audições para conseguir um papel em seriados teens e um ingrato emprego na cafeteria dos estúdios Warner (estabelecimento que não existe na vida real) conhece o pianista Sebastian (Ryan Gosling), grande apaixonado pelo Jazz e inconformado com o ostracismo que a evolução da história submeteu à estonteante e genial manifestação artístico-musical. Mia sonha em brilhar nas telas, Sebastian sonha em ter seu próprio clube noturno e destarte salvar a música que vem genuinamente do coração, porém a realidade é que Mia continua a servir cafezinhos a estrelas de cinema e tipos soberbos enquanto Sebastian toca piano para animar festas adolescentes e noites natalinas em bares para ricos arrogantes. Tudo seria dramaticamente triste e desesperançoso se não estivéssemos diante de um musical hollywoodiano, e em como todo o grande clássico do gênero, a redenção virá através do amor que surge entre o casal. O cinema norte-americano é condescendente e ama os losers, e nós cinéfilos também!

É fato que a música é um dos grandes trunfos de “La La Land”. Vindas de um excelente trabalho anterior de colaboração com o diretor do filme, da parte do músico Justin Hurwitz, lindas canções como “Another Day Of Sun”, que abre o longa e “Someone in the Crowd” fazem entusiastas de musicais baterem pezinhos na sala de cinema e se segurarem na cadeira para que a empolgação não escandalize o vizinho. E até mesmo quando as canções começam a tornarem-se um tanto quanto açucaradas, como as indicadas ao Oscar “Audition (The Fools Who Dream)” e o tema do casal protagonista “City of Stars”, tocada cansativa e exaustivamente durante as duas horas de projeção, a beleza da música compensa as letras um tanto quanto rasas.

O trabalho musical eletrizante do filme deve-se também à grande performance da dupla de protagonistas, que voltam a trabalhar juntos após “Amor a Toda Prova”, confirmando a imensa química existente entre os dois. Ryan Gosling aprendeu a tocar piano de verdade para viver Sebastian; e se por vezes pode parecer um tanto quanto monocórdico no mergulho melancólico de seu personagem, o perdoamos em absoluto por seu belo par de olhos azuis e seu impressionante carisma. Emma Stone brilha na composição de uma Mia que flutua entre a audácia e a fragilidade de uma original mocinha dos musicais românticos; seus lindos olhos esbugalhados são doces e apaixonantes, e “La La Land” deliciosa e descaradamente tira proveito disso. Longe do swing de grandes dançarinos profissionais, ambos simpatica e meio desengonçadamente se esforçam no bailado das coreografias, despertando-nos saudades dos grandes Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly, Leslie Caron, Rita Hayword entre tantos outros.

A direção precisa de Damien Chazelle também merece destaque, vindo de um trabalho anterior indefectível – o estonteante “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, em “La La Land” o diretor e roteirista ostenta todo seu talento na manipulação das câmeras, usando a grua em planos- sequência (com cortes cirurgicamente escondidos) de tirar o fôlego e com uma beleza plástica indescritível, sempre referenciando grandes obras da sétima arte como “Duas Garotas Românticas”, “Nos Tempos da Brilhantina”, “Charity, Meu Amor”, “Cantando na Chuva”, “Vamos Dançar”, “Cinderela em Paris”, “Moulin Rouge”, “Boogie Nights” entre outras. É sempre econômico na utilização dos cortes visíveis, dando a trama uma deliciosa fluidez, que somado a utilização de planos abertos, mostra uma belíssima cidade de Los Angeles em oníricos tons de azul e lilás e a excelência na tomada das sequências musicais, coroam um louvável trabalho, um dos favoritos ao Oscar de melhor direção este ano.

La La Land

A direção de arte vinda da mente e mãos de Austin Gorg (um dos responsáveis pelo belíssimo “Ela” de 2013), o incrível figurino de Mary Zophres (constante colaboradora dos irmãos Coen em trabalhos como “Onde os Fracos Não Têm Vez” e “Fargo”) e a fotografia de Linus Sandgren (de “Trapaça” e “Joy: O Nome do Sucesso”) são de impressionar. Abusando de cores primárias e secundárias sempre em tons vibrantes “Almodovarianos”, criam uma experiência fílmica visivelmente glamorosa em seu conjunto e singulares na marcação da atmosfera das estações do ano, que pontuam o desenrolar da trama. O diretor Damien Chazelle elegeu Tom Cross, vencedor do Oscar de melhor montagem por seu “Whiplash: Em Busca da Perfeição” para montar “La La Land”, confirmando a máxima de que em time que está ganhando não se mexe. Repetindo os louváveis maneirismos de seu trabalho anterior, o montador traz frescor e agilidade à sucessão de cenas do longa.

É claro que nem tudo são flores, e nem tudo é perfeito em “La La Land”. O roteiro se prolonga em demasiado para apresentar grandes viradas na trama, guardando as maiores emoções para os minutos finais da projeção. Ryan Gosling não faz feio em seus números musicais solo, mas é notável sua baixa potência vocal quando canta ao lado de Emma Stone, dona de uma voz bem mais doce e afinada. Hollywood adora filmes metalinguísticos e que prestam honras ao seu próprio legado, o que justifica todos os prêmios e a badalação que marcam o desempenho do filme nas telas e fora delas, mas a doce e melodiosa história de amor da dupla de amantes em busca de suas versões pessoais e clássicas do “american dream” talvez incomode em certo ponto espectadores mais engajados e entusiasmados com um cinema mais original e provocador. No fundo todos esses pequenos tropeços de “La La Land” merecem nosso absoluto perdão. Hollywood sempre foi e sempre será a grande fábrica de ilusões e sonhos. E sonhar é preciso em tempos tão amargos e duros. Se a vida não nos dá a chance de cantar e sapatear animadamente pelas ruas, que o cinema nos redima de tanta frieza e desesperança, afinal, amanhã será outro dia de sol, o Jazz não pode morrer e nossas metas estão lá, esperando para serem alcançadas!