Não é preciso mergulhar nas águas de Manchester para sentir o quão frias elas são, o roteirista e diretor  Kenneth Lonergan nos deixa absolutamente cientes disto em seu longa “Manchester à Beira Mar”. E é com um cenário frio, figurinos de cores frias e personagens frios que ele nos conta uma impactante história de como é difícil superar erros do nosso passado que podem transtornas-nos a vida toda, ao mesmo tempo em que temos que continuar vivendo juntando os cacos de um coração estilhaçado. O filme recebeu seis indicações ao Oscar, para melhor filme, diretor e roteiro e para as interpretações incríveis de Casey Affleck, Lucas Hedge e Michelle Williams.

“Manchester à Beira Mar” conta a história de Lee Chandler (Casey Affleck), trabalhador residente em Boston, sem nível superior, que limpa lavabos, lavatórios, só não consegue limpar a própria vida, que ao menos estava em um grau aceitável de morosidade antes do falecimento de seu irmão Joe Chandler (Kyle Chandler). Além de uma quantia em dinheiro no testamento, o irmão morto também deixou a Lee a tutoria do sobrinho Patrick (Lucas Hedges) de quem vive afastado há muitos anos. Aliás, cumprir a vontade do irmão significa para Lee voltar à cidade de Manchester, que guarda um grande trauma que assombra seu passado, e que não soube superar em absoluto.

Manchester a Beira Mar

É louvável o trabalho de direção de Kenneth Lonergan (do morno “Conte Comigo”) que marca bem as diferenças entre um presente estóico, sem esperanças e monótono e um passado por vezes alegre, vibrante e saudosista. A utilização de flashbacks permitidos pela bela montagem de Jennifer Lame (de “Cidades de Papel”) tece uma colcha de retalhos fragmentada que o espectador vai progressivamente captando ao mesmo tempo em que vai entendendo as ações e reações de nosso perturbador protagonista. É interessante, por exemplo, como o diretor utiliza apenas planos gerais, médios e abertos em quase toda a primeira metade do filme, não nos permitindo aproximar emocionalmente de forma fácil de seus personagens, em detrimento do tradicional plano/contra-plano. A ostentação desse recurso acontece de forma soberba quando ao filmar o passado dos Irmãos Lee e Joe, com o pequeno Patrick no barco, faz a câmera acompanhar o barco de longe só nos permitindo entender o que acontece através dos diálogos. O diretor nunca faz consessões ao dramalhão, imprimindo realidade na forma de tratar o material fílmico e demonstrando um grau de respeito por seus personagens.

E o frio impera em “Manchester á Beira Mar”. Seus figurinos são em tons de azul, cinza e preto. A neve cai de forma incessante na cidade de Manchester cobrindo as paisagens de árvores retorcidas e sem folhas – bem como a alma dos personagens. A fotografia jamais deixa qualquer deles brilhar na tela, os cenários também transbordam cores britânicas frias e neutras em tons pastéis. Os únicos momentos onde o filme permite um colorido mais vibrante são de memórias da felicidade familiar de Lee e sua esposa e filhos. Até o esporte praticado pelo jovem Patrick é o hóquei no gelo, e quando Lee está jogando vídeo game, o jogo escolhido é uma partida de hóquei – leia-se: parece que vem chumbo pesado. E não é que vem mesmo!

Manchester a Beira Mar

Casey Affleck está perfeito em sua composição do personagem – sua cara apática e seus olhos sorumbáticos completam um perfeito Lee Chandler despedaçado que nos fascina para além das falas contidas de um roteiro perfeito, mas nos momentos de silêncio, aonde um gesto ou um simples olhar pode transmitir toda sua alma destruída. Algumas cenas são fantásticas, quando, por exemplo, no hospital, onde vem saber da morte do irmão, Lee tenta de alguma forma resgatar alguma felicidade perdida em seu passado, incomodado porque que a médica que sempre tratou o irmão não o acompanhou em seu leito de morte e trocando o termo “ex-esposa” por “esposa”. Indicação ao Oscar merecida, e inclusive favorita até bem pouco tempo.

Mas quem impressiona mesmo em “Manchester à Beira Mar” são os coadjuvantes. Lucas Hedges é perfeito na composição do sobrinho mala sem alça e com relacionamentos amorosos poligâmicos, mas que vai Deus saber por que, acabamos nutrindo algum tipo de simpatia e carinho quando pede ao tio que distraia a mãe de uma das namoradas enquanto se diverte com a mesma no andar de cima da casa dizendo: “Por que você não me ajuda um pouco em vez de me arrastar para o advogado, a funerária e o necrotério?”. Michelle Willians faz o papel da ex-mulher de Lee Chandler e aparece apenas em quatro sequências no filme, porém em todas elas a atriz DES-TRÓI! Como um potente maçarico, sua personagem sempre chega para trazer calor (literalmente), balançar a história fria e triste, injetando emoção e adrenalina. Uma atuação deslumbrante e soberba, nos moldes que a Academia adora premiar como coadjuvante, o que lhe valeu essa importante indicação.

Manchester a Beira Mar

No fim das contas “Manchester à Beira Mar” é um grande filme, um magnífico trabalho de desenvolvimento de personagens a que muitas vezes dedicamos nossa piedade, ao invés da tradicional empatia. Era um projeto original do “good guy” Matt Damon, que ia dirigir o longa e chamou o diretor Kenneth Lonergan para reescrever o roteiro, porém quando este foi reescrito, Matt Damon percebeu que o material que tinha era bem melhor que o original e por incompatibilidade de agenda deixou (graças!) o projeto nas mãos de Lonergan, que certamente injetou na história doses cavalares de um delicioso pessimismo. É uma história absolutamente necessária, porém de digestão longa, difícil, e principalmente doída. Sua melancolia pode não agradar as plateias em geral, acostumadas a histórias mais leves e açucaradas. Porém é importante enquanto obra de arte que nos mostra que o passado pode nos condenar sim, de forma dura e infinda; mas que a roda do destino não espera pacientemente nossa recuperação. Cada um que cate seus cacos e dessa forma toque sua vida encarando seus próprios monstros com um corpo e alma calejados e cheios de cicatrizes.