ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!!

Após o relativo fracasso de “Batman Vs Superman” e “Esquadrão Suicida” todas as fichas da DC Comics estavam apostadas no filme “Mulher-Maravilha”. A icônica personagem Diana Prince remete aos cinéfilos como eu que não têm hábito de ler HQs à deliciosa série clássica dos anos 1970 com a divina Lynda Carter, aos desenhos animados dos “Super Amigos” e aos mais recentes filmes de animação da DC Universe, sendo um longa-metragem solo da personagem algo capaz de gerar ansiedade e expectativas mesmo em quem não é entusiasta de filmes de heróis ou que por falta de propriedade prefere manter-se à parte do embate de Fãs da Marvel Vs. Fãs da DC, que digladiam com a paixão das torcidas de um Fla X Flu. Conseguiria a super-heroína como protagonista salvar não só o planeta, mas os bolsos dos magnatas dos estúdios hollywoodianos? Em tempos de heroínas empoderadas merecidamente ganhando protagonismo em filmes de franquias testosterônicas como “Star Wars” e “Mad Max” e com a direção do projeto dado sabiamente à competente diretora Patty Jenkins (do brilhante “Monster – Desejo Assassino”) o cenário parecia perfeito para o projeto, mas o produto final é um longa irregular, sem equilíbrio entre drama e ação e que não consegue esconder algumas falhas de realização.

“Mulher Maravilha” é um filme de origem da heroína e dentro do universo estendido da DC contado em flashback após os eventos de “Batman Vs. Superman” a partir de uma foto enviada para Diana (Gal Gadot) por Bruce Wayne que leva a heroína a recordar seu passado nos levando consigo nestas recordações, sendo composto por três atos principais – a infância e adolescência da personagem na paradisíaca ilha das amazonas Temyscira até a queda do avião do major norte-americano Steve Trevor (Chris Pine) combatente na primeira guerra mundial, sua saída da ilha junto com o piloto para conhecer o Velho Mundo acreditando que a grande guerra deveria estar sendo criada pelo deus Ares, e o ato final aonde junto a uma trupe de amigos e seu amado a heroína vai à guerra, onde vivência a expressão máxima de seus super poderes. Tudo é contado através de um bom roteiro vindo das mãos do roteirista de séries de TV Allan Heinberg (da série The Catch), embora bem diferente da pegada dos roteiros anteriores nos filmes do universo DC. Aqui os diálogos mais sisudos e intelectuais dão lugar a falas leves e muitas vezes cômicas, muito bem escritos, mas não sei até que ponto o novo frescor esconde uma cópia da fórmula de sucesso do estúdio concorrente. A utilização do flashback da forma como aqui é feita também é batida e desgastada, mas uma vez que o mesmo também é utilizado muito nas histórias em HQ não merece críticas duras.

Patty Jenkins é uma boa diretora, todos os arcos dramáticos do filme são bem capturados por sua câmera, que de forma sábia não erotiza nem sensualiza sua protagonista, mostrada quase sempre em planos médios ou em contra-plongée (câmera abaixo do nível dos olhos voltada para cima) esticando sua figura na tela e dando a sensação de poder. Porém nas cenas de ação, nota-se uma limitação da diretora, que utiliza de forma cansativa um slow-motion e uma montagem quase videoclipada para esconder os truques coreográficos. Ótimas cenas de ação já são feitas com câmera parada e a porrada comendo em tempo real, um capricho maior cairia bem. O (mau) uso exagerado de computação gráfica nas cenas de ação e no terceiro ato também compromete o trabalho da diretora nesta obra, que por conta disso por vezes assume um look de série televisiva ou em algumas cenas da heroína na grande guerra enquadrada sempre com umas faíscas de fogo soltas atrás descambam para o terreno do kitsch e do mau gosto.

A fotografia é um ponto alto do filme, um bom trabalho de Matthew Jensen (responsável pela fotografia de alguns episódios de “Game of Thrones”) que marca bem a diferença entre as cenas do primeiro ato, com uma luz quente nas cenas na ilha Temyscira, essencial para criar uma atmosfera paradisíaca e ressaltar a imponência e o garbo das amazonas, ricamente vestidas com o figurino de Lindy Hemming (da Trilogia Batman de Christopher Nolan), e a iluminação fria e sombria do ato final dando à grande guerra belos tons azulados que realçam as cores da armadura da Mulher Maravilha e o brilho áureo de seu laço da verdade. A trilha sonora por outro lado, é fraca e manipuladora, ganhando tons histriônicos em alguns momentos para realçar o drama ou a tensão, quando a história em teoria já deveria ser boa para despertar tais emoções e criar desejadas catarses. No próprio universo DC já vimos trilhas muito mais inteligentes e orgânicas (e excelentes), como a de Hans Zimmer em “Batman: O Cavaleiro das Trevas” ou a trilha musical de “Esquadrão Suicida”.

Gal Gadot não é uma ótima atriz, e isso é ressaltado nas cenas em que contracena com seu par romântico interpretado por Chris Pine, que não rouba a cena da atriz pois a construção do roteiro sabiamente não permite que Diana/Mulher Maravilha perca o protagonismo e porque a atriz comunga com o ator de um imenso carisma e presença em cena – nós acreditamos na força daquela mulher e na sua absoluta representação do girl power. Temos ótimas coadjuvantes no primeiro ato, como Connie Nilsen (“Gladiador” e “Advogado do Diabo”) como Hipólita – mãe da heroína, e Robin Wright (“House of Cards” e “Forrest Gump”) como Antíope, irmã de Hipólita e tia de Diana, a principal responsável por seu treinamento. O grupo que acompanha Diana à guerra também é composto por ótimos atores, com destaque para Ewen Bremer (o inesquecível Spud de “Trainspotting”). Mas o filme carece de bons vilões – a excelente atriz espanhola Elena Anaya (de “A Pele que Habito” e “Fale com Ela”) é pouquíssimo explorada como Doutora Veneno e o fantástico ator David Thewlis (“Teoria de Tudo” e “Anomalisa”) que revela-se ao final não ser o simpático Sir Patrick mas o temido deus da guerra Ares sofre as penas de dois grandes pontos fracos da obra: a maldição do plot twist – na tentativa de esconder da audiência a identidade do vilão para uma virada final na trama não temos a oportunidade de conhecer a construção das motivações do antagonista – e um diálogo final entre Ares e a Mulher Maravilha lamentavelmente escrito, destoando mesmo do restante do roteiro com frases de efeito muitas vezes risíveis e cafonas.

Mas o maior pecado de “Mulher Maravilha” acontece quando a história de certa forma trai o empoderamento feminino no seu clímax final ao nos mostrar que a personagem chega ao exercício de seus plenos poderes não por uma aceitação pessoal de sua missão como a maior das heroínas do planeta ou pela sobreposição de seus medos dentro de uma clássica “jornada do herói”, mas sim por um ato de coragem de seu par romântico que heroicamente se suicida despertando em Diana um sentimento que a faz abraçar seu destino e expressar a totalidade de suas forças salvando o planeta de uma possível destruição e retirando da personagem parte do brilho e da glória de seu protagonismo. Em tempos onde o cinema pop celebra a Imperatriz Furiosa salvando milhares de escravos com Mad Max acorrentado com focinheira em “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015) e que uma bela e corajosa guerreira Jedi herda o poder e a força de Luke Skywalker em “Star Wars: O Despertar da Força” (2015), ver o símbolo máximo do heroísmo feminino usando seu relacionamento como escada para a realização plena de suas motivações me desperta um sentimento parecido ao que sinto quando tiro revés no jogo “Banco Imobiliário” e retrocedo sete casas. É bem triste!

Resumo
Mulher-Maravilha
Wilson Antônio

Estudante de “Cinema e Audiovisual” na Universidade Federal Fluminense, Cirugião-dentista e DJ de música eletrônica, carioca da gema (mas torço pelo São Paulo Futebol Clube) e acredito que a felicidade se compra sim, nas bilheterias das salas de cinema! Entusiasta da historia do cinema mundial e da cinematografia européia. Agradeço ao cinema quem eu sou, como acordo, como como, como ando, como penso, como sinto e principalmente como amo!