O Filme da Minha Vida

Selton Mello e Walter Carvalho, conseguem registrar de modo singular o tempo da ausência e o seu vazio. Ele está na natureza, no vento…na espera. Johnny Massaro, está impecável como uma figura “Quixotesca”, que pega o trem, conduzido sem adiantar o tempo, pela personagem do Boldrin – em uma participação de uma presença impagável no filme, como uma espécie de “Caronte”. Segundo ele, levando as pessoas para resolver seus problemas. Esse mesmo trem transporta latas velhas com rolos de películas, para o pequeno cinema na cidade vizinha, onde está sendo exibido o clássico, “Rio Vermelho” de Howard Hawks e Arthur Rosson. Vincent Cassel é o pai de Tony e realiza mais um trabalho numa interpretação minimalista e de uma verdade que emociona.

O trabalho da atriz Ondina Clais – a Sofia mãe do Tony – junto com a paisagem, o vento e o fog da região, compõem cores particulares, que faz jus a uma homenagem ao mestre Tarkosvky. O filme possui sequencias que traduzem emoções, sentimentos em poesia e beleza, num elogio ao poder da imagem e ao cinema.

Bruna Linzmeyer está belíssima, (aliás todas as atrizes, eu diria até que Walter Carvalho é o fotografo que ama as mulheres) sua personagem complementa a homenagem, é uma jovem descobrindo a fotografia, talento herdado do pai que é um fotografo de casamentos na pequena cidade.

Além de dirigir Selton Mello atua no filme, vivendo Paco, uma espécie de “Yago” – afinal quase toda grande história tem “cama envolvida” – em um belo esforço, ele constrói uma personagem que resulta na imagem de um homem pesado, materializado na tela, com suas nuances e contrastes.

Não posso deixar de falar do trabalho de figurino da Kika Lopes e da direção de arte do Claudio Amaral Peixoto, que torna tudo crível e especial, entre tantos momentos de realização, está a casa das irmãs Madeira e a Casa vermelha, onde detalhes revelam o garimpo realizado por estes artistas que vestem as personagens e ajudam na construção dos quadros deste universo.

A participação do Antonio Skármeta, autor da obra original, “Um pai de cinema”, adaptada por Marcelo Vindicatto e Selton Mello, agrega valor e afetividade ao projeto.

O filme da minha vida, é uma obra delicada e bem realizada, sua trilha sonora é um elemento importante no filme, pensada e montada de modo tão coerente, que escapa de se tornar excessiva e brega, pelo contrário ela conduz.

Resumo
O Filme da Minha Vida
Jacqueline Durans

Roteirista, Diretora e Produtora. Graduação em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, formada pelo Teatro Escola Macunaíma, SP; Coprodutora, Roteirista e diretora dos curtas: 2017 – Curta documentário “Achei o meu nariz”
2016 – Cidade em Transe; 2016 – Insônia – Inspirado na obra de Edward Hopper. 2016 – Coordenou o NucineClube da Universidade Estácio de Sá – Campus João Uchõa. Master classes de roteiro e direção com Sir Richard Eyre, Carlos Reichnbach e outros.