Há algo que o crítico especializado ou o expectador desatento parecem negligenciar perante a uma película “tarantinesca”. Refiro-me à experiência única de contemplação e catarse que o cinema pode oferecer ao ser humano. Momentos que elevam a alma para um estágio que só a arte consegue conduzir. É a satisfação em poder ver Shoshana se maquiando para sua derradeira vingança ao som de David Bowie em Bastardos Inglórios; ver Dr. King Schultz ao lado do parceiro Django cavalgando pela neve embalados pela melodia “I Got A Name”, de Jim Croce; ou de contemplar Hatori Hanzo forjando sua mais mortal espada para Beatrix Kiddo, em Kill Bill. Todos esses momentos e personagens marcantes são criações do mesmo homem, Quentin Tarantino, que domina como poucos as emoções dos cinéfilos. Isso porque, sendo ele um cinéfilo inveterado, teve sua formação assistindo aos mais variados filmes produzidos em diversas partes do globo. Infelizmente, seu novo trabalho não consegue repetir os grandes momentos descritos acima.

Estabelecendo a marca, logo nos créditos iniciais, de “oitavo filme de Quentin Tarantino”, Os Oito Odiados não faz concessões em se conectar com outros filmes do cineasta, seja na trama que confina um grupo de pessoas violentas num mesmo ambiente, semelhante a Cães de Aluguel; no elenco que traz figurinhas carimbadas na filmografia do diretor ou nos truques narrativos, como flashbacks expositivos, além da estetização da violência. A trama se passa logo depois da Guerra Civil Americana que dividiu os Estados Unidos em dois grupos opostos: o sul, escravocrata e o norte, liberal. Nesse contexto de consolidação da nação mais poderosa do mundo, a questão racial é novamente abordada pelo diretor que já havia tratado do tema em Django Livre. A abordagem do tema muda no novo filme atingindo um nível mais complexo. Os oito odiados são dois caçadores de recompensa, interpretados por Samuel L. Jackson e Kurt Russel; uma condenada à forca (Jennifer Jason Leigh); um veterano da Guerra Civil (Bruce Dern); um carrasco profissional (Tim Roth); um xerife novato (Walton Goggins); um caubói de poucas palavras (Michael Madsen) e um mexicano (Demián Bichir). Todos forçados a interagir num mesmo local, uma hospedaria no Wyoming, após uma forte nevasca.

Os 8 Odiados

O filme é dividido em seis capítulos ao longo de seus 187 minutos. A sensação é de que o diretor exagera nos diálogos verborrágicos nos três primeiros capítulos, deixando para acelerar as reviravoltas nos três últimos. Mesmo mantendo a narrativa em um único cenário, o roteiro nunca limita sua discussão a respeito dos temas desenvolvidos: trata-se de uma exposição do início do que viria a se tornar os Estados Unidos da América. Por isso, a questão racial é tão cara à trama juntamente com a carta redigida por Abraham Lincoln a um dos personagens, simbolizando a mitificação do presidente para os americanos. Os personagens simbolizam os responsáveis pela formação dos Estados Unidos. Temos os colonos sulistas, os negros recém-libertos, o imigrante italiano, o inglês. É a interação entre eles, representando a tensão social da época, o grande destaque do roteiro.

A trilha sonora composta pelo mestre Ennio Morricone, tantas vezes emulado por Tarantino em seus filmes, é monumental. Fã declarado de Morricone, Tarantino deve vários momentos míticos de seus filmes às composições do lendário compositor. A trilha de Os Oito Odiados é apoteótica, conferindo tensão à narrativa.

Ao final da projeção, o expectador sai do cinema certo de que presenciou um filme com elementos tarantinescos. Porém, a vibração e euforia provocados por outros trabalhos do diretor, passam longe.

Os 8 Odiados