Cinéfilos do mundo, uni-vos! É chegada a hora da mais popular celebração de amor ao cinema – no dia vinte e seis de fevereiro de 2017 ocorre a entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, mundialmente conhecida como a Cerimônia do Oscar. Sim! Sabemos que a Academia é injusta e preconceituosa, odiamos sua soberba, mas é impossível não nos encantarmos com o glamour e a elegância com que celebra a entrega de seus prêmios por excelência em realizações na sétima arte. Há sessenta e sete anos televisionada no Brasil, a Cerimônia este ano será apresentada pelo estreante Jimmy Kimmel, comediante que comandou o Emmy 2016 e tem um talk-show elogiado na tv norte-americana. Vamos à análise das principais categorias que serão premiadas na maior noite de gala do cinema estadunidense.

Este é um ano bastante interessante na categoria principal da premiação – temos dois filmes excelentes que fariam jus à estatueta: o aclamado musical La La Land: Cantando Estações, recordista de indicações (14) e que já levou os prêmios de Globo de Ouro para melhor Comédia/Musical, o prêmio do Sindicato dos Produtores de Hollywood (considerado o maior termômetro para o prêmio da Academia) e o BAFTA (considerado o oscar britânico), e o sensacional “Moonlight: Sob a Luz do Luar” com 8 indicações da Academia e premiado com o Globo de Ouro para melhor Drama. Na disputa temos ainda o emocionante “Lion: Uma Jornada para Casa”, o forte e envolvente Manchester à Beira-mar, o tecnicamente impecável drama de guerra “Até o Último Homem”, a deliciosa releitura moderna do faroeste “A Qualquer Custo”, a interessante ficção-científica “A Chegada”, e os mais fracos concorrentes (mas ainda assim bons filmes): o excessivamente teatral “Um Limite Entre Nós” e a história de empoderamento racial/feminista “Estrelas Além do Tempo”.

Quem merecia ganhar?
“Moonlight: Sob a Luz do Luar” certamente trouxe uma história mais potente, original e antenada com a busca da Academia por corrigir injustiças históricas contra artistas afrodescendentes ao apostar em uma trama homoafetiva com diretor e atores negros, porém “La La Land: Cantando Estações” encantou cinéfilos de todo o mundo com uma belíssima homenagem aos grandes musicais do século XX, recheado de referências ao clássico, porém com um final transgressor e surpreendente. Os dois filmes mereciam dividir o maior prêmio da noite.

Quem provavelmente levará a estatueta?
La La Land: Cantando Estações” dificilmente perde o prêmio. Com 14 indicações em 13 categorias, o musical igualou-se ao grandioso “Titanic” (1997) e ao aclamado “A Malvada” (1950) e já papou os principais prêmios termômetros da categoria, encantando audiências com sua história de amor envolvente e eletrizante. Soma-se o fato da Academia adorar premiar filmes metalinguísticos que fazem ode aos seus anos de ouro, sua própria história e produção.

Outra briga boa nesta categoria – Na primeira linha temos o embate entre dois jovens e brilhantes diretores: Damien Chazelle, perfeito com seus planos sequência e long-shots tecnicamente irretocáveis em “La La Land: Cantando Estações” e Barry Jenkins, mais visceral e poético no manejar da câmera em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”. Correndo por fora temos Denis Villeneuve menos inspirado em “A Chegada” do que em trabalhos anteriores (“Sicario: Terra de Ninguém”, “Os Suspeitos” e o avassalador “Incêndios”), Mel Gibson com sua visão sempre religiosa ortodoxa – tecnicamente perfeita em “Até o Último Homem”, e Kenneh Lonergan que em “Manchester à Beira-mar” assumiu um projeto original de Matt Damon e conseguiu arrancar potentes trabalhos de interpretações de seus protagonistas e coadjuvantes.

Quem merecia ganhar?
Se por um lado premiar Barry Jenkins representaria um marco aos preconceitos históricos que mancham a Academia e uma justíssima vitória do movimento “Oscar is so White!”, não podemos negar que o momento é de Damien Chazelle. Vindo de um trabalho anterior perfeito com “Whiplash: Em Busca da Perfeição” (2014), em “La La Land: Cantando Estações” o diretor ostentou todo seu potencial técnico-narrativo criando sequências memoráveis como a estonteante introdução de seu longa, onde literalmente parou uma engarrafada autoestrada de Los Angeles para que quase uma centena de seus personagens cantassem e dançassem em uníssono. Outros números musicais viralizaram e foram reproduzidos por cinéfilos apaixonados em todo o planeta. Não seria justo que saísse sem o prêmio por seu brilhante trabalho de direção.

Quem provavelmente levará a estatueta? 
Damien Chazelle já ganhou o Globo de Ouro, o BAFTA e DGA – prêmio do Sindicato dos Diretores de Hollywood (que coincidiu 62 em 69 vezes com as premiações na história do Oscar). Será uma surpresa se não levar para casa a estatueta.

A disputa principal nesta categoria se dará entre Casey Affleck, que encontrou o personagem certo no filme certo “Manchester à Beira-mar”, e o consagrado Denzel Washington que já tem duas estatuetas na sacola (Melhor Ator Coadjuvante em 1990 por “Tempo de Glória” e Melhor Ator em 2002 por “Dia de Treinamento”) e tenta levar a terceira com um brilhante trabalho em “Um Limite Entre Nós”. Na tangente à disputa temos o “tour de force” de Ryan Gosling, que cantou, sapateou e aprendeu a tocar piano de verdade para encarnar seu personagem em “La La Land: Cantando Estações”, o trabalho correto de Andrew Garfield, debutante em indicações, vivendo um personagem baseado em um herói de guerra real e o tocante trabalho de Viggo Mortensen protagonizando “Capitão Fantástico”.

Quem merecia ganhar?
Após altos (“O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” de 2007) e baixos (“Amor Fora da Lei” de 2013) Casey Affleck está no melhor momento de sua carreira e protagonizou com maestria a trágica história de “Manchester à Beira-mar”, em um trabalho contido onde gestos e olhares valiam mais que palavras, que transbordam em grandes monólogos na atuação de seu grande rival Denzel Washington em “Um Limite Entre Nós”. Premiar Denzel seria a consagração de um dos melhores atores de sua geração, mas sem conseguir se livrar da carga teatral de sua performance. Casey fez um trabalho mais cinematográfico e é quem merece o troféu.

Quem provavelmente levará a estatueta?
Casey já ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA por seu trabalho em “Manchester à Beira-mar”, e seria franco favorito se Denzel não tivesse papado o SAG –prêmio do Sindicato de Atores de Hollywood – na categoria, o que embolou um pouco a disputa. Denzel conta ainda com a inclinação da Academia a responder ao movimento “Oscar is so white!” do ano passado. Ainda aposto em Casey, mas pode dar Denzel!

Com alguns cinéfilos ressentidos pela ausência de Amy Adams que emplacou dois bons trabalhos na temporada (“A Chegada” e “Animais Noturnos”), a disputa pelo prêmio de melhor atriz deve ficar entre Emma Stone que brilhou em “La La Land: Cantando Estações” e a diva francesa Isabelle Huppert com uma interpretação forte e complexa da protagonista de “Elle”. Menos cotadas estão as atuações de Natalie Portman que depois de abocanhar todos os prêmios de melhor atriz em 2011 com “Cisne Negro”, volta a deslumbrar audiências com sua representação da ex primeira dama Jacqueline Kennedy em “Jackie”, a recordista absoluta de indicações Meryl Streep, com um belo trabalho em “Florence: que Mulher é essa?” e a debutante Ruth Negga com seu cativante trabalho de protagonismo em “Loving”.

Quem merecia ganhar?
Há uma forte corrente querendo dedicar o prêmio a Isabelle Huppert. A atriz tem uma carreira brilhante e é unanimidade entre cinéfilos no mundo inteiro. A Academia já premiou três atrizes francesas: Simone Signoret em 1960 por “Chemin de a haute Ville”, Juliette Binoche em 1997 por “O Paciente Inglês” e Marion Coutillard em 2008 por “Piaf”. Sua premiação seria um reconhecimento à sua contribuição ao cinema, porém apesar de grandiosa, sua atuação em “Elle” não mostra um dos pontos mais altos de sua carreira; ao contrário de Emma Stone, a potencial nova “queridinha da América” está em seu melhor momento e brilha protagonizando “La Land: Cantando Estações”.

Quem provavelmente levará a estatueta?
A Academia tem o hábito de premiar novas atrizes norte-americanas concorrendo com grandes estrelas do cinema mundial – premiou Gwyneth Paltrow (“Shakespeare Apaixonado”) em 1999 concorrendo com Fernanda Montenegro (“Central do Brasil”), premiou Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”) concorrendo com Emmanuelle Riva (“Amor”) (os Deuses do cinema castigaram a atriz que tropeçou em seu vestido Dior ao subir a escada para receber o prêmio) e pode repetir a dose dando o prêmio a Emma Stone em detrimento a Huppert. Emma já ganhou o Globo de Ouro, o BAFTA e o SAG na categoria e é franca favorita.

A categoria traz cinco belos trabalhos de interpretação, mas não deve fugir de um resultado previsível. O jovem Lucas Hedges está ótimo em “Manchester à Beira-mar”, assim como Jeff Bridges em “A Qualquer Custo” e Michael Shannon em “Animais Noturnos”. Dev Patel vem de uma carreira em ascensão desde “Quem Quer Ser Um Milionário?” e tem um bom trabalho em “Lion: Uma Jornada para Casa”, mas nenhum deles faz frente ao brilhante desempenho de Mahershala Ali em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”.

Quem deveria ganhar?
Mahershala Ali tem a melhor performance entre os concorrentes, não por demérito dos demais, mas por sua gigante atuação dando vida a um personagem forte em uma história envolvente, bela e emocionante. Suas sequências são pontos altos de “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, o ator está soberbo e merece ser consagrado por seu trabalho.

Quem provavelmente levará a estatueta?
Mahershala Ali ganhou o SAG na categoria; perdeu o Globo de Ouro para o ótimo trabalho de Aaron Taylor Johsnon em “Animais Noturnos”, mas este foi esnobado pela Academia e nem ameaça. Vitória virtualmente prevista de Ali.

Aqui é “briga de cachorro grande”! Michelle Willians está espetacular em “Manchester à Beira-mar”, Naomie Harris visceral e fantástica em “Moonlight: Sob a Luz do Luar”, Octavia Spencer brilhante em “Estrelas Além do Tempo”, Nicole Kidman emocionante em “Lion: Uma Jornada para Casa” e a diva Viola Davis destruindo em “Um Limite Entre Nós”. Cinco grandes atrizes em cinco trabalhos brilhantes.

Quem merecia ganhar?
O indefectível trabalho de Michelle Willians é o clássico que a Academia gosta de premiar na categoria: personagem que aparece pouco, mas rouba a cena em absoluto quando o faz. Já Viola Davis poderia facilmente concorrer na categoria Melhor Atriz por seu Trabalho em “Um Limite Entre Nós”, mas ao se inscrever como coadjuvante potencializou suas chances de ser consagrada na noite. A atriz é uma unanimidade entre os amantes da sétima arte, tem uma carreira estelar que precisa e já deveria ter sido laureada com uma estatueta há anos.

Quem provavelmente levará a estatueta?
Viola passou o rodo e levou o Globo de Ouro, o BAFTA e o SAG na categoria. Já deve ter reservado o lugar para seu Oscar na cabeceira da cama e é a favorita absoluta.

Quem provavelmente levará a estatueta? “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”

Com cinco ótimos concorrentes, com direito a um representante do cultuado Estúdios Ghibli (de “A Viagem de Chihiro” premiado na categoria em 2002) do Japão, a força dos Estúdios Disney deve fazer a diferença na categoria e colocar seus dois indicados, “Moana: Um Mar de Aventuras” e “Zootopia: Essa Cidade é o Bicho”, na briga direta pelo prêmio. “Zootopia” leva vantagem pela força de sua história – uma alegoria contra o preconceito e o machismo, e pela excelência em sua execução, com referências ao clássico “O Poderoso Chefão” (1972) e a badalada série televisiva “Breaking Bad”.

Quem provavelmente levará a estatueta? “O Apartamento” (Irã) de Asgar Farhadi

Os favoritos são “Toni Erdmann” (Alemanha) de Maren Ade e “O Apartamento” (Irã) de Asgar Farhadi. O iraniano leva vantagem por ter mais prestígio entre os membros da Academia, que em 2012 o premiou na categoria pela obra-prima “A Separação”, e pela comoção causada por seu boicote à cerimônia em resposta às medidas migratórias decretadas pelo presidente Donald Trump, que quase o impediram oficialmente de entrar no país para concorrer à estatueta. De portas abertas, mas decidido a não comparecer à festa, Asgar escolheu dois influentes cientistas americanos com origem iraniana para lhe representar. Se realmente for premiado, o momento deve marcar um dos muitos atos de repúdio ao governo Trump que acontecerão durante a noite.

Melhor Roteiro OriginalQuem provavelmente levará a estatueta? “La La Land: Cantando Estações”

O melhor roteiro entre os cinco concorrentes certamente é o de “O Lagosta”, assinado por Yorgos Lanthimos, que conta uma fantasiosa história de um futuro onde pessoas solteiras são proibidas por lei de existirem na forma humana, e transformadas em animais soltos em uma floresta; mas sem ao menos ter sido indicado ao prêmio do Sindicato dos Roteiristas, não acredito que tenha forças para brigar por chances reais de um prêmio da Academia, que deve laurear o roteiro de Damien Chazelle para “La La Land: Cantando Estações”.

Melhor Roteiro AdaptadoQuem provavelmente levará a estatueta? “Moonlight: Sob a Luz do Luar”

Um fato interessante aconteceu nesta categoria: o favorito “Moonlight: Sob a Luz do Luar” concorreu e venceu o prêmio do Sindicato dos Roteiristas na categoria Melhor Roteiro Original, pois apesar de ser uma adaptação de um projeto de texto teatral de Tarell Alvin – este nunca saiu do papel e foi lançado. A Academia, entretanto, foi categórica em não entender que o roteiro de Barry Jenkins e do próprio Tarell era uma obra original, levando-o a concorrer de forma direta com o roteiro de “A Chegada”, adaptado do conto “A História da Sua Vida” de Ted Chiang, que ganhou o prêmio da categoria no Sindicato. A briga é entre os dois roteiros, mas “Moonlight: Sob a Luz do Luar” deve se consagrar.

 

Minha aposta nas demais categorias:

Melhor Documentário: “O.J.: Made in America”

Melhor Curta-Metragem: “Sing”

Melhor Documentário em Curta-Metragem: “The White Helmets”

Melhor Animação em Curta-Metragem: “Piper: Descobrindo o Mundo”

Melhor Direção de Arte: “La La Land: Cantando Estações”

Melhor Figurino: “La La Land: Cantando Estações”

Melhor Maquiagem: “Esquadrão Suicida”

Melhor Fotografia: “La La Land: Cantando Estações”

Melhor Edição: “La La Land: cantando Estações”

Melhor Efeitos Visuais: “Rogue One – Uma História Star Wars”

Melhor Canção Original: “City of Stars” de “La La Land: Cantando Estações”

Melhor Trilha Sonora: “La La Land: Cantando Estações”

Melhor Edição de Som: “Até o Último Homem”

Melhor Mixagem de Som: “La La Land: Cantando Estações”

A 89ª Cerimônia de entrega dos Oscars será realizada no Teatro Dolby, em Los Angeles, Califórnia e será transmitida no Brasil pelo canal por assinatura TNT, ao vivo, às 21:00. É preparar a pipoca e esperar para torcer por seus favoritos na mais badalada premiação do cinema em todo o mundo.