Um dos maiores ressentimentos de Alfred Hitchcock, seria de que poucas vezes conseguiu o elenco ideal e desejado para seus projetos, questão que as preocupações de Martin McDonagh passaram longe, devido ao competente trabalho de Sarah Finn responsável pelo casting de “Três Anúncios para um Crime”, que tem arrebatado prêmios por todos festivais e premiações que tem passado, além de receber sete indicações ao Oscar 2018.

Este é o segundo set americano do diretor e roteirista inglês-irlandês, Martin McDonagh, neste filme ele nos apresenta o Missouri, com suas personagens implacáveis e furiosas, que povoam a platitude das paisagens e cidades do interior, tanto quanto podem ser.

O roteiro de Martin é corajoso e possui uma estrutura forte, ele não teme a palavra e as usa de modo obsceno e irônico (talvez uma influencia da Irlanda de James Joyce, em Ulisses), nas vozes destas personagens caóticas e ferozes, que se atacam de modo mordaz e que quando em silêncio, este é carregado pelo fogo do ódio, que sinaliza o incêndio a caminho. Nada mais coerente, já que estamos em território da ku klux klan.

O filme nos conta a história de uma mãe em busca de justiça para o caso de estupro e assassinato de sua filha adolescente, um crime que – como tantos outros – continua sem respostas. Mildred, enfrentando seus próprios demônios por palavras malditas na hora da raiva, nomeia e chama a responsabilidade as autoridades, instalando em uma estrada afastada, três outdoors com letras garrafais sobre um fundo vermelho, questões sobre as ações da polícia para elucidar o crime e em um deles ela coloca, a seguinte frase, “Morreu sendo estuprada”.

A direção de fotografia do cinegrafista Ben Davis é digna de elogios, ela na abertura nos convida a entrar no universo daquele interior, pela névoa, os painéis de outdoors abandonados, a quietude, o silencio “pacato” e romantizado da vida no interior.

Na esfera individual, a guerra já se instaurou, reflexo da conjuntura mundial onde a insegurança e o medo são a tônica, a pequena cidade de Martin, é um recorte do cenário mundial onde aqueles que não tinham voz, estão gritando contra o niilismo estabelecido sobre os direitos de tantos colocados a margem.

O pavio esta queimando, sem dialogo, na cidade se estabelece o clima de um “western” absurdo, onde essas pessoas estão armadas e perigosas. Diante de sua realidade a Mildred de Frances McDormand declara, “não há Deus, e o mundo inteiro está vazio e não importa o que fazemos uns com os outros “.

O elenco é escandalosamente bom, podemos sentir estas vidas respirando, exalando pela pele e poros destes atores generosos, responsáveis com seu trabalho e sua parte no todo de uma obra audiovisual.

Mesmo as personagens periféricas possuem peso, profundidade, com destaque para Sam Rockwel que está surpreendente como o policial violento e racista, fruto do meio, de uma cultura xenófoba e reacionária. Sandy Martin como a dominadora e malvada Mamãe Dixon. Woody Harrelson, que já em “Castelos de Vidro” havia construído uma delicada personagem do Missouri, retorna no papel do xerife.

Frances McDormand é com certeza, uma das grandes atrizes do nosso tempo, com a sua Mildred ela constrói uma cracker que, com certeza passara para a história das atuações que viraram mito, ela diz tudo sem verbalizar uma palavra, é possível entender e enxergar toda a determinação, a força e o amor desesperado desta mãe.

Três Anúncios para um Crime

 

Num mundo em desequilíbrio, onde nos falta referencias de que caminhos, atitudes tomar, entre horrores, melancolia, onde nada é claro e certo, como as personagens de “Três Anuncios para um Crime”, estamos na estrada, todos juntos, sem certezas, em busca de transcendência, paz.

Resumo
Três Anúncios para um Crime
Jacqueline Durans
Roteirista, Diretora e Produtora. Graduação em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, formada pelo Teatro Escola Macunaíma, SP; Coprodutora, Roteirista e diretora dos curtas: 2017 - Curta documentário "Achei o meu nariz" 2016 - Cidade em Transe; 2016 - Insônia – Inspirado na obra de Edward Hopper. 2016 - Coordenou o NucineClube da Universidade Estácio de Sá - Campus João Uchõa. Master classes de roteiro e direção com Sir Richard Eyre, Carlos Reichnbach e outros.