Bogotá, 2 jan (EFE).- A cantora Ayiiti interpreta e reinterpreta a bússola haitiana no campo cultural e educacional da Colômbia, na plena expansão deste gênero após seu reconhecimento pela UNESCO, para construir uma ponte entre a diáspora do país antilhano, a música urbana e o povo colombiano.
Ayiiti canta em crioulo haitiano e espanhol e, quando se apresenta na Colômbia, não apenas entrega ritmos, mas conta histórias. Sua música traz ao país a bússola, ao estilo haitiano, que a UNESCO inscreveu em 2025 na lista dos representantes do patrimônio cultural imaterial da humanidade, e a transforma em uma experiência viva de diálogo cultural.
“Na Colômbia a bússola é bem recebida, de forma natural”, disse o artista à EFE e acrescentou que “há uma ligação imediata com os ritmos caribenhos”.
Nascido em Paris, filho de pai haitiano e mãe chilena, Ayiiti – nome que se refere ao Haiti em crioulo haitiano – mora no país há mais de 15 anos, crescendo ouvindo compas antes de se mudar para lá.
Morou nos Estados Unidos e em França e atualmente vive na Colômbia, país que, diz, lhe permitiu criar “a melhor música” da sua carreira.
“Como haitiano, o reconhecimento da UNESCO é uma ótima notícia”, disse o artista à EFE, explicando que “o Haiti sofreu muito, mas tem uma cultura incrível” e “é hora de reconhecer pelo menos uma” do seu género.
Sua presença na Colômbia foi além do palco musical, pois cantou em escolas de Bogotá, onde os alunos foram apresentados ao crioulo haitiano pela primeira vez.
Ele também esteve no concerto solidário no estádio El Campín, diante de milhares de pessoas em agosto passado, e na feira de negócios EVA, uma das maiores feiras desse tipo na Colômbia em 2025.
“As crianças sempre me perguntam que língua é essa (…) É aí que começa o interesse, não só pela música, mas pelo Haiti”, disse.
Segundo dados da Embaixada do Haiti na Colômbia, entre 15 mil e 20 mil haitianos vivem no país, principalmente em Bogotá, Medellín e Cali.
Compas nasceu em 1955 com o maestro Nemours Jean-Baptiste e desde então incorporou influências do jazz, rock, R&B e eletrônica, sem perder sua identidade dançante.
“A bússola nunca se inclinou”, explica à EFE o produtor haitiano Jean-Marc Desrosiers, colaborador de várias orquestras clássicas do género, sublinhando que “a música serve para comunicar com outros ritmos das Caraíbas e do mundo”.
Ayiiti compartilhou essa visão e em estúdio desenvolveu uma fusão que chama de “compatón”, uma mistura de compas e reggaeton.
“Sempre pensei que fossem primos (…) Os instrumentos não são os mesmos, mas a conversa com o ritmo”, disse.
Para a cantora, a bússola é uma “ponte entre culturas”, definição que coincide com a da UNESCO, que sublinha as suas raízes africanas, europeias e indígenas e o seu papel na sociedade.
A bússola estende-se do Haiti aos Estados Unidos e França, onde vive a maior comunidade haitiana do mundo, mais de 1,1 milhões de pessoas nos Estados Unidos e quase 800.000 em países europeus, segundo estimativas oficiais e académicas.
“A diáspora é a chave para que a bússola se internacionalize”, disse Desrosiers, que destacou que “em Nova Iorque, Miami e Paris reinventaram-se sem perder a sua identidade”.
Este processo também começa a ocorrer na Colômbia, onde os imigrantes, o interesse dos produtores locais e a proximidade de géneros como o afrobeat, o reggae e o reggaeton abriram novos campos para o ritmo.
No nível local, os artistas colombianos têm historicamente se envolvido com vozes caribenhas que não falam espanhol. Salsero Joe Arroyo incorporou influências da bússola haitiana em suas explorações musicais e agora uma nova geração está abraçando essa troca.
Em 2025, Beéle confirmou essa abertura com uma sessão ao vivo de seu hit ‘Quédate’ durante oito shows consecutivos no Estádio Movistar de Bogotá, ampliando a visibilidade de outros ritmos caribenhos.
O artista de Barranquilla transformou essa música em um fenômeno nas redes sociais onde o canto e a dança das compas se tornaram tendência.
Para Ayiiti, o reconhecimento internacional não tem limites: “A UNESCO é uma honra, mas não vai aprisionar a bússola (…) Esta música evoluiu em todo o mundo.
Da Colômbia, sua voz confirma que a bússola não é apenas dançada, mas também ouvida como memória, identidade e futuro do Caribe. EFE















