O Sundance deste ano foi marcado por grande incerteza. Pessoalmente, não tenho certeza de como me sentir, porque a incógnita da mudança de Boulder no próximo ano significa que não está claro o quanto este ano deve parecer o fim de algo ou o início de um novo começo. Eu nem sabia o quão triste era, porém, à medida que o festival avançava, ficou claro que havia espaço para reflexões nostálgicas.
O primeiro filme que vi em Sundance foi a comédia “Hamlet 2”, de Andrew Fleming, no The Library Center Theatre. Isso significa que estamos em 2008 e sou um freelancer que fala sobre como dormi no sofá de um prédio que o Times alugou até que a equipe se mudou e eu finalmente tive o lugar só para mim por causa de um erro no contrato de aluguel. Foi assim que me vi, de forma totalmente inesperada, em uma sala entrevistando Crosby, Stills, Nash e Young, que estavam na cidade para a turnê do documentário “CSNY/Déjà Vu”.
Esse sentimento de admiração e descoberta – e a interação com as pessoas que talvez não acontecesse em nenhum outro lugar – foi o que me trouxe de volta ao festival anual que sempre pude fazer. É exatamente por isso que sou tão fã da seção NEXT do festival, que traz filmes que não cabem em nenhum outro lugar da programação. Em destaque este ano está o filme de estreia de Georgia Bernstein “Enfermeira Noturna,” um filme sobre uma jovem (convencendo Cemre Paskoy) que trabalha em uma casa de repouso, mas se vê envolvida em golpes telefônicos, brincadeiras eróticas e manipulação psicológica de um cliente. Apresentar o filme a um colega parece uma violação do RH, mas o fluxo excêntrico e as emoções perturbadoras valem a pena.
Cemre Paksoy e Bruce McKenzie no filme “Enfermeira Noturna”.
(Lidia Nikonova/Instituto Sundance)
Muita conversa no festival parecia se concentrar fortemente em “The Invitation” e “Josephine”, mas outro filme que foi mencionado consistentemente foi “Vime.” Escrito e dirigido por Eleanor Wilson e Alex Huston Fischer, adaptando um conto de Ursula Wills-Jones, o filme se passa em um tempo e lugar não especificados: uma espécie de vila europeia de classe média, onde uma mulher solteira (Olivia Colman) pede a um tecelão de cestos local (Peter Dinklage) que a faça marido. Sua saída como Alexander Skarsgård deixou toda a cidade nervosa. Dinâmico e criativo, com efeitos especiais convincentes, o filme é uma alegoria encantadora que continua encontrando formas de se repetir.
Não está claro como foi planejado, mas não havia filme melhor do que este “O único batedor de carteiras vivo de Nova York” será a última forma de ficção a estrear no Eccles Theatre, um dos locais mais históricos do festival. Estreia na direção de Noah Segan, o filme é um belo retrato da cidade e da dor de saber que seu tempo já passou. Dirigido por uma atuação silenciosa de John Turturro, o filme é estrelado por Steve Buscemi e Giancarlo Esposito em papéis coadjuvantes.
Quando os três homens subiram ao palco com Segan e os demais atores após o filme, rapidamente ficou claro que a presença desses três atores naquele momento era muito especial. Buscemi recitava o espantoso número de filmes em que apareceu com “New York” no título – “New York Stories”, “Slaves of New York”, “King of New York” – enquanto Turturro falava com entusiasmo sobre a sua relação com Robert Redford, cuja ausência pesou sobre todo o festival.
John Turturro no evento “The Only Living Pickpocket in New York”.
(MRC II Distribution Co. LP / Instituto Sundance)
Quando Esposito começou a falar sobre o que Sundance significou para ela ao longo dos anos, suas palavras foram poderosas. Ele lembrou quando veio pela primeira vez ao festival, na década de 90, “estava feliz porque dava voz a quem não tinha voz. … Não viemos vender filmes para grandes estúdios.
Sobre Redford, ele acrescentou: “Sua visão não tem preço. É a joia que todos esperamos.
Foi uma maneira linda e inspiradora de deixar aquele teatro pela última vez e, por sua vez, deixar Park City em direção a um futuro que, embora cheio de incógnitas, ainda traz a promessa de coisas novas por vir.















