Um ataque de drone em 20 de setembro matou nove crianças com idades entre três e doze anos num centro desportivo em Porto Príncipe, onde várias crianças se reuniam para receber doações num evento organizado por uma gangue. Estas operações fazem parte de uma série de operações aéreas realizadas pelas forças de segurança haitianas contra grupos criminosos, que segundo a Human Rights Watch (HRW), mataram pelo menos 1.243 pessoas, incluindo crianças menores de 17 anos, entre março de 2025 e janeiro de 2026. Muitos feridos e danos à população civil do Haiti.
Segundo um relatório publicado pela organização e citado pela HRW, foram registadas 141 operações de drones em onze meses, entre os ataques ordenados pelo primeiro-ministro haitiano, Alix Didier Fils-Aimé, para combater gangues armadas num país que enfrenta uma profunda crise de violência. Segundo a HRW, não só membros de grupos armados são alvo destas operações, mas também residentes que não estão afiliados a gangues. O relatório afirma que das 1.243 mortes registadas, 43 correspondem a pessoas não relacionadas com gangues, incluindo crianças com menos de 17 anos. Além disso, pelo menos 738 ficaram feridas, 49 delas civis não relacionadas com gangues.
A HRW destacou que “assassinatos extrajudiciais intencionais” foram observados no contexto destas ações, detalhando que os ataques se intensificaram especialmente em Porto Príncipe nos últimos meses em análise. Entre novembro de 2025 e janeiro de 2026, a capital haitiana registou 57 ações armadas com drones, o dobro do registado no trimestre anterior, correspondente aos meses de agosto e outubro. A mídia confirmou que o medo e a insegurança têm levado os moradores da cidade a ficarem fora de suas casas por causa do que consideram ser uma “fonte constante de terror” proveniente do uso desses dispositivos.
Os dados incluem ainda uma análise de registos que circulam nas redes sociais, que a HRW analisou e de casos em que drones foram usados contra pessoas, algumas das quais armadas, mas que não estiveram envolvidas em episódios violentos ou não ameaçaram de morte imediata. A HRW salienta que estes tipos de intervenções podem ser classificados como execuções extrajudiciais e não como ações legítimas de resposta policial que justificam o uso de força letal.
Quanto à implementação da operação, informações detalham que as forças de segurança haitianas trabalham com a empresa militar privada Vectus Global, empresa licenciada para exportar serviços de segurança no país, segundo a Embaixada dos EUA no Haiti. A diretora da HRW para as Américas, Juanita Goebertus, instou as autoridades a implementarem um monitoramento eficaz das agências de segurança e dos operadores privados para evitar que a morte de crianças continue. “As autoridades haitianas devem controlar urgentemente as forças de segurança e os empreiteiros privados que trabalham para elas antes que morram mais crianças”, sublinhou.
Relativamente à investigação oficial, a HRW salienta que nem o primeiro-ministro Fils-Aimé, nem a Polícia Nacional do Haiti, nem os funcionários da Vectus Global responderam às perguntas da organização sobre a operação e as suas consequências. O estudo destaca que, embora a polícia esteja investigando o tráfico de drones da República Dominicana para gangues haitianas, não há evidências de que grupos criminosos estejam utilizando esta tecnologia em geral. Este ponto é importante porque as ONG documentaram a utilização de drones contra civis em situações de conflito como a Ucrânia e o Sudão, mas nunca no contexto da polícia de segurança interna.
A declaração de Goebertus incluída pela HRW sustentou que há necessidade de restaurar a segurança no país e alerta que “os ataques ilegais de drones acrescentam uma nova camada de abuso à violência que destruiu as comunidades durante anos”. A publicação refere ainda que a operação de drones tem causado um aumento do impacto na população civil, referindo que mesmo os mais jovens têm sido vítimas de ataques, por vezes em situações em que não se envolveram em violência ou mantiveram ligações conhecidas com gangues armadas.
Por fim, a organização sublinhou que os seus dados se concentram no período de 1 de março de 2025 a 21 de janeiro de 2026, destacando a frequência e intensidade das atividades num país onde a crise de segurança continua a agravar-se.















