Begoña Fernández
Madri, 7 de fevereiro (EFE).- Não é incomum que os quadrinhos adaptem dramas, muito menos entrelacem três obras do mesmo autor em uma só. Foi o que aconteceu com ‘Lorquiana’, drama em que a atriz vivencia a juventude de ‘Bodas de Sangre’, o desejo de ser mãe em ‘Yerma’ e o matriarcado de ‘La casa de Bernarda Alba’.
“É algo que nunca aconteceu antes: costurar três peças de teatro em uma única história em quadrinhos”, disse o escritor Salva Rubio (1978) em entrevista à EFE, que adaptou esta obra com Planeta Cómic, ideia que surgiu em 2009 como série, e ilustrada pela cartunista María Badía (1998).
Embora originalmente pensasse em televisão, a ideia mudou ao longo dos anos até que se voltou para os quadrinhos e encontrou uma editora que entendeu o potencial narrativo do projeto.
Dezessete anos depois, o projeto virou história em quadrinhos e o autor sabia que tinha uma “ideia fixa” e quando teve uma boa, continuou até encontrar alguém que a concretizasse.
“Posso adaptar Lorca, mas não reescrevê-lo”, explica o autor, que explica que todo o texto e diálogos são retirados inteiramente da obra de Lorca.
Rubio explicou que sua intervenção se baseia em corrigir os detalhes da história para que se encaixem nela. Por exemplo, no texto original de ‘Bodas de Sangue’ a noiva fica na aldeia, enquanto nos quadrinhos ela foge e no processo de fuga se conecta com ‘Yerma’, ela se casa e quer um filho, mas o filho nunca vem.
E a desesperada ‘Yerma’ foge novamente, o que acaba matando o marido, conhece o homem que será o pai de suas cinco filhas e termina a vida envolvida na tragédia de ‘A Casa de Bernarda de Alba’.
O romance coincidiu com o 90º aniversário da morte de Federico García Lorca, que o romancista descreveu como uma coincidência: “Estava para ser publicado (chega às livrarias no dia 25 de fevereiro), quando percebemos que era a data do aniversário do poeta.
Rubio, que também escreveu os roteiros de ‘O Fotógrafo de Mauthausen’ e ‘A Bibliotecária de Auschwitz’, explica que a história inclui temas contemporâneos como feminismo, patriarcado, pressão da sociedade sobre as mulheres, vingança, frustração e morte.
E o trabalho de Lorca é universal. “Infelizmente, estes temas não envelheceram bem e estas peças são feitas até no Irão, onde há uma grande opressão das mulheres”.
O autor destaca que as manifestações nos países islâmicos mostram que “muitas vezes as autoridades não conhecem a cultura e não veem a mensagem”.
O trabalho gráfico coincide com María Badía, uma jovem ilustradora que começou com esta história em quadrinhos e conseguiu fazer com que a personagem Lorquiana envelhecesse ao longo do texto, reconhecível e consistente na aparência.
E para conhecer a pessoa, Badía faz uma pesquisa ao longo do tempo: Lorquiana fica quase igual nas três histórias, a única coisa que muda é o penteado (cabelo selvagem em ‘Casamento de Sangue’, cabelo em ‘Yerma’ e a cabeça completamente coberta em ‘A Casa de Bernarda de Alba’).
A iluminação e o espaço também acompanham o processo documental. Em ‘Blood Wedding’ há muitas velas e grandes janelas, enquanto em ‘Yerma’ há luminárias, lampiões de querosene e grades.
Na hora de ‘A Casa de Bernarda Alba’, as janelas estão fechadas, a sala está escura e as luzes são elétricas.
Badía explicou que passou seis meses pesquisando os personagens e os espaços e, durante esse período, chegou a visitar, em Granada, a Huerta de San Vicente, casa de Lorca, e foi lá que tirou a sua maior fonte de inspiração.
Em relação à cor, eles são diferentes. Rosa e bordô em ‘Bodas de Sangre’, verde e azul em ‘Yerma’ lembrando natureza e fertilidade e cores marrons e escuras em ‘La Casa de Bernarda Alba’: “Estamos falando de mulheres que estão presas”.
Badía acredita que quadrinhos com essas características devem chegar ao ensino médio, pois trarão três obras de Lorca aos adolescentes em um único livro e permitirão que descubram títulos como ‘Yerma’ ou ‘Bodas de sangre’, quase desconhecidos dos alunos do ensino médio.EFE
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