Por Victor Castelló
Santiago, 9 de março (EFE).- Quatro anos depois de José Antonio Kast, da extrema direita, ter agradecido a “Deus, à família e ao país” pela sua passagem no segundo turno das eleições presidenciais que foram perdidas para o progressista Gabriel Boric, a mesma fé, que ele somou a uma campanha criminosa bem-sucedida, fará dele nesta quarta-feira o primeiro pinochetista a usar o cinturão presidencial.
Depois apresentou um amplo programa no qual propunha a abolição do Ministério da Mulher ou a proibição do aborto e se opunha ao livre acesso à pílula todas as manhãs, mas agora a principal promessa de Kast, muito liberal na economia, é aplicar mão dura ao crime e à imigração ilegal.
“A convicção é a mesma (…), mas agora os chilenos têm uma urgência diferente”, disse o presidente do Partido Republicano que fundou, admitiu durante a campanha, depois de ser questionado sobre a forte retórica que pareceu não funcionar nas duas eleições presidenciais que enfrentou durante os seus 16 anos como deputado.
LAVA PINOCHETISTA
Kast abrirá um novo capítulo na história do Chile como o primeiro defensor da ditadura de Pinochet (1973-1990) a receber o cinturão presidencial e procurará apoiar a história do declínio do Chile, que é entendida mais pelas emoções do que pelos dados, porque o país tem um dos melhores registos da região tanto a nível económico como de segurança.
Um advogado ultracatólico, membro do movimento apostólico de Schoenstatt, percorreu o país com promessas de acabar com a imigração ilegal, melhorar as prisões e cortar 6 mil milhões de dólares em 18 meses – sem detalhar como o faria –, e levantou a ideia de que o Chile precisa de mudanças radicais para acabar com o “comunismo”.
Superou o resto da direita, mesmo que não tenha começado como favorito, como Evelyn Matthei, uma ex-ministra, líder da direita tradicional, ou o líder de extrema direita e barulhento do Partido Nacional Libertário, Johannes Kaiser, por causa de sua estratégia discreta, com um discurso calmo e uma imagem de uma pessoa sóbria e normal, mas que não pode ser controlada pelo crime.
Assim, conseguiu tornar-se o presidente eleito com o maior número de votos na história da democracia chilena – por ser a primeira eleição presidencial em eleições obrigatórias – e iniciou uma transição sem precedentes, com interferências no Parlamento, viagens internacionais e críticas à administração cessante, o que levou a um colapso sem precedentes na história da República.
Ele visitou líderes ideológicos próximos a ele, como Javier Milei, o líder ultralibertário da Argentina, que foi a primeira parada internacional de Kast como presidente eleito e o elogiou e até o fotografou, um símbolo do colapso econômico do governo ultraliberal da Argentina.
Pediu ajuda ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, para “melhorar o sistema prisional”, embora também tenha se reunido com o presidente progressista brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
FAMÍLIA KOKO
Filho de um rico casal de imigrantes alemães – seu pai era associado ao partido nazista e participou da Segunda Guerra Mundial – e formado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica, Kast foi parlamentar durante 16 anos no partido conservador União Democrática Independente (UDI), criado pela ditadura, que perdeu nas eleições independentes com 201%.
Em 1989 defendeu a votação no referendo sobre a continuação do poder do ditador Augusto Pinochet, de quem a sua família sempre foi próxima: é irmão de Miguel Kast, ministro e economista que fundou, com outros, o sistema ultraliberal no Chile, baseado nos postulados dos ‘Chicago Boys’.
Fez repetidamente declarações de apoio à ditadura, criticadas por organizações de vítimas, e até indicou que apoia a libertação de membros do antigo regime que estão em prisões estatais condenados por tortura, homicídio, desaparecimentos e outras violações dos direitos humanos e crimes contra a humanidade. EFE
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