O primeiro trabalho de Sophy Romvari, “Blue Heron”, é um livro de memórias amoroso e entusiasmado de aprendizagem. Sasha (Amy Zimmer), a protagonista e substituta, tenta compreender o passado de sua família através do processo de entretenimento respeitoso. Embora ache tudo incompreensível, há beleza e conforto na própria viagem – e talvez uma espécie de catarse.
“Blue Heron” é um projeto biográfico, mas é mais apropriado chamá-lo de livro de memórias. Sasha admite que não se lembra muito da infância e nem confia nas peças. Mas ele tentará de qualquer maneira. Enquanto Sasha acessa seu iPhone, em um penhasco com vista para sua cidade natal, Romvari vira a traseira de um caminhão para entregar um pedaço da nostalgia da infância dos anos 90, relembrando memórias de sua família de imigrantes húngaros chegando em sua nova casa na ilha de Vancouver, no Canadá.
Papai (Ádám Tompa) trabalha no computador de casa; Mamãe (Iringó Réti) tenta entreter as crianças com passeios à praia e à natureza. Trechos do verão são filtrados pelos olhos e ouvidos de Sasha (Eylul Guven), de 8 anos, e em uma foto tirada por seus pais.
Mas há uma presença perturbadora: Jeremy (Edik Beddoes), o filho mais velho. Loira, clara e alta, ela se destaca dos outros três filhos e sua rebeldia silenciosa permeia o ambiente.
Seus comportamentos são pequenos – irritantes, mas incontroláveis quando combinados – como quicar uma bola contra uma parede, desaparecer por diversão ou subir em um telhado. Ele muitas vezes age como um adolescente inquieto e insatisfeito, desenhando mapas elaborados e às vezes flertando com seus irmãos. Tudo parece um mal inofensivo até aumentar.
O título do filme refere-se a um chaveiro de uma loja de presentes que Jeremy, que quase nunca fala, dá para sua irmã mais nova. Assim como ele, o filme é tranquilo e meditativo, banhado em azul e verde frio nas locações, rodado no cinema saturado por Maya Bankovic. Somos transportados para lugares de beleza natural e estações aparentemente ilimitadas. Mas a tensão associada a Jeremy ferve abaixo da superfície, como no famoso monumento de Chantal Akerman de 1975, “Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles”, pontuado por uma cena de mãe e filha descascando batatas.
“Blue Heron”, porém, não será apenas um drama sobre um menino problemático e sua irmã mais nova. O filme apareceu de repente, na fila, vinte anos depois. A versão mais antiga de Sasha de Zimmer luta contra o vazio de seu irmão e ela faz isso com sua mente, suas ações, suas ações. Ela lidera um grupo focal de assistentes sociais para uma investigação para tentar entender o comportamento de Jeremy e o tratamento que ele recebeu na época. Ele percorre vídeos e fotos e entrevista um assistente social. Ele foge de filmes antigos.
No premiado filme de Romvari de 2020, “Still Processing”, uma obra-prima com “Blue Heron”, ele processa fotograficamente a perda de dois irmãos, vasculhando uma caixa de fotos antigas e negativos de filmes tirados por seu pai, que se formou ator na Hungria. Parece natural para Romvari explorar as emoções através da prática artística, dando a ela – e a Sasha – algo para fazer com as mãos. A capacidade das imagens em “Still Processing” dá acesso ao passado. Romvari chorou enquanto ela os espalhava sobre a mesa, falando baixinho com os irmãos. Mas há um afastamento do foco intenso nas imagens que podem protegê-lo do peso total das emoções.
Mas em um filme como “Blue Heron”, tudo é possível, inclusive viajar no tempo, e para Romvari, este é o canal que ele oferece a Sasha para alcançar o encerramento que ela precisa: uma visita a uma época da qual ela mal se lembra, mesmo enquanto constrói um arquivo de ferramentas para se fortalecer.
Enquanto a jovem Sasha observa (e Guven é muito legal de assistir), a mais velha Sasha fala. Zimmer, um comediante de Nova York, desempenha um papel pesado, taciturno e totalmente convincente, perfurando seu silêncio. Mas ela também tem jeito com as palavras, claro e com um raro tipo de empatia, especialmente em uma carta que Sasha lê para seus pais.
É esta carta que “Blue Heron” representa para o cineasta — uma tentativa de recriar o passado, de trazê-lo de volta à vida. Embora imperfeito, o valor está no esforço, na prática contínua da memória, como expressão de compromisso com a família e consigo mesmo.
‘Garça Azul’
Em inglês e húngaro, com legendas
Não avaliado
Tempo de viagem: 1 hora e 30 minutos
Jogar: Abre sexta-feira, 24 de abril em versão limitada















