Gustavo Borges
México, 7 de junho (EFE).- Hoje em dia, quando metade do mundo se reúne para prever quem vencerá a Copa do Mundo e quem será o primeiro jogador de futebol, o livro “Peloti e a Copa do Mundo” apareceu no futebol, sem países nem machismos.
“Peloti é herdeira de Mafalda, a menina questionadora; ela incomoda os adultos porque questiona muitas instituições; o Estado, o país, o patriotismo, o machismo, o patriarcado, a economia e a imigração”, disse Sebastián Kohan, dramaturgo e escritor, um dos autores, em entrevista hoje à EFE.
Com pouco mais de 300 páginas, o livro publicado pela marca Alfaguara, com prefácio do campeão mundial argentino Jorge Valdano, faz uma radiografia dos países que disputarão a Copa do Mundo a partir da próxima quinta-feira, sem parar em Messi com a Argentina; Cristiano Ronaldo com Portugal ou Mbappé com a França.
“Este livro, mais do que sobre futebol, fala sobre imigração. O que diz é que alguns dos melhores jogadores espanhóis são filhos de africanos; o que nos diz é que França, Bélgica e Holanda têm muitos jogadores das colónias”, disse Kohan.
Criado por Kohan com o historiador Rafael Igartúa, a escritora Gina Jaramillo e os jornalistas Mariana Azores e Daniel González, ‘Peloti e o Mundo’ centra-se no machismo no Irão, na exploração de estrangeiros no Qatar ou em factos interessantes como o facto do poeta Leopold Sedar Senghor ter sido o primeiro presidente do Senegal.
“Muitos da minha geração estudaram geografia e política por causa do futebol; assisti a uma aula de história e depois vi a Nápoles de Maradona e compreendi a diferença entre o norte rico e o sul pobre de Itália. O futebol como forma de comunicação e compreensão; jogar no bairro e sentir-se, é outra coisa e este livro vai para lá”, explicou.
Embora seja destinado ao público adolescente, ‘Peloti e a Copa do Mundo’ trata de temas profundos, por vezes polêmicos, sobre as diferenças do mundo, embora não utilize palavras que ensinem ou dominem a verdade, mas sim raciocínios, expressos com ironia e humor.
“Evitamos a linguagem do jornalismo desportivo como uma praga. Um jornalista de futebol deve primeiro ser jornalista e depois saber se uma equipa joga com 4-4-2 e tudo mais. Cristiano Ronaldo e Messi não são muito mencionados no livro porque querem ir para outro lugar, mais rebelde”, disse.
Kohan acredita que o futebol morreu como esporte profissional em 1994, quando os Estados Unidos sediaram a Copa do Mundo.
“Eles decidiram que isso se tornaria um negócio e começaram a jogar fora as diretrizes da comunidade do entretenimento; a máfia da FIFA é totalmente ruim em relação ao futebol”, disse ele.
O ‘Peloti e a Copa do Mundo’ traz de volta a ideia de entender a cidade e o mundo, se você levantar os olhos para o chamado do futebol e pensar como, ao ver um time, pela sua fisionomia, pela sua aparência, pela mistura e pelos nomes de seus jogadores, você pode entender como o país foi criado.
“No Japão é simples porque não se misturam muito, os nomes das famílias vêm da mesma região. Mas há países como o Brasil, onde a mistura é maior; ou como a França cujo time era formado por brancos e agora é um time com filhos ou netos de imigrantes.”
Escrever um livro entre cinco é difícil. Kohan disse que houve divergência de opinião porque todos queriam dar a sua opinião, mas fizeram um acordo e fizeram o trabalho, uma espécie de homenagem ao futebol local, longe dos milhões de jogadores de futebol com atitude de estrelas de cinema, esquecendo-se de onde vieram.
“Nossa ideia é fugir do nacionalismo; aprendemos a conviver com as contradições porque o menor futebol, o futebol de rua, é para nós e ninguém vai matá-lo, porque é quem somos. A outra coisa que chamamos de pós-futebol, a coisa terrível que os jogadores fazem para serem famosos”, concluiu à EFE.
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